terça-feira, 12 de julho de 2016




A Bela Adormecida, por Marta Peixoto.

Vivi um sono profundo durante muito tempo de minha vida; sempre obediente, submissa e tentando agradar aos outros. Isto devido à minha educação e características de minha personalidade. Nem me queixava, pois não me dava conta de que eu poderia ser diferente ou que minha vida poderia ter sido diferente ou, se me dava, não sabia como mudar a ordem das coisas. Me lembro de relacioná-la com “la chèvre de monsieur Séguin “.
O pensamento que eu tinha quando criança era o de um conto de fadas: quando crescer vou me formar, conhecerei um rapaz por quem vou me apaixonar, me casar, terei filhos e viverei feliz para sempre. Bem, me formei, me casei, tive filhos e vários anos se passaram enquanto meus filhos cresciam e eu trabalhava na profissão que tinha escolhido e era feliz [pensava eu] até que aconteceu algo que mudou minha vida completamente.
Meu marido me comunicou, de um dia para o outro, que ia sair de casa para morar com sua colega de trabalho [10 anos mais jovem que eu], e de quem ia ter um filho e nos deixaria a mim e aos filhos. Nunca suspeitei que ele estivesse namorando muito menos que fosse nos deixar. Só minha mãe, muito sábia, deduziu que ele tinha outra mulher quando uma vizinha me contou que ele tinha deixado a porta do apartamento aberta quando saiu, enquanto meus filhos e eu veraneávamos na praia.
A partir daí, de sua saída, tive que aprender a ser independente, decidida e a continuar a viver tentando me recuperar do vazio do nosso lar, mas tendo a meu lado meus filhos, que eram o mais importante de minha vida.
O sonho acabou. A Bela Adormecida acordou daquele sono profundo em que vivera grande parte de sua vida e daí em diante a vida era viver e lutar.
Mas hoje transcorridos muitos anos desse episódio que parecia tão trágico e desastroso, eu me encontrei bela e acordada, incansavelmente acordada, trabalhando e amando viver tanto, que todas as noites não esqueço as gotinhas de fitoterápico para dormir.

segunda-feira, 18 de abril de 2016

Lemos juntas com as mulheres ventenras de POA o conto maravilhoso de Karen Blixen “La pagina em blanco” e sua interpretação definitiva no ensaio de Susan Gubar:  de "La página en blanco" y los problemas de la creatividad feminina”.

A escritora dinamarquesa Karen Blixen.

A ensaísta Susan Gubar.

Segue a produção ficcional do grupo sobre a página em branco.

A página em branco, por Lívia Petry:

                 Escrevo como escrevem os poetas: com a verve insana, com a asa ferida, entre verdades e mentiras. Escrevo para ser livre da baba de Caim, escorrendo em minhas veias. Escrevo porque sou feia, porque enrolo a língua para dizer “eu te amo”,  porque derrubo etiquetas e tapetes, desfaço os livros de bom comportamento, dou risada das colunas sociais, e vivo assim, à esquerda, gauche, tortinha como queria Drummond. Desengonçada e solitária, faço do meu corpo a escultura de prazeres: mesa, cama, cheiro, perfume Kenzo.
                    Como uma revolucionária às avessas, escrevo para viver. Para ser criador e criatura numa só nota de amargura. E faço do cursor, da pena, da caneta, meus lábios e meus olhos. Porque as palavras vêem, porque as palavras falam e gritam tudo o que eu sempre quis dizer e não tive coragem para isso. A folha em branco é o lençol conspurcado dos amantes, é o espaço dos fluidos que se tocam, que se espalham. A folha em branco é o lenço de Desdêmona, é a minha perdição extrema, é o lugar longe do espelho de Alice, é o lugar onde me encontro nascida outra vez.
                        Eu, que nasci de duas mulheres: minha mãe, primeira luz; minha avó, luz primeira. E assim, desde pequena, imitei a anciã da família. A anciã rebelde, que não quis apenas ser esposa e mãe, que quis ser escritora e professora de literatura. A anciã que escrevia novelas para a rádio Farroupilha. Ela sim, entendia minha loucura. Ela sim, sabia o que eu queria dizer quando escrevia: “paredes são rios e não sabem”. A avó, foi a primeira a pegar em armas: na caneta e na Ollivetti, ela criou novos mundos. Cansada da guerra, recebi dela a artilharia inteira: palavras, palavras à mancheia...
                    Escrevo porque como minha avó dizia, “o sonho não acabou”. O sonho somos eu e você, cada um sonhando que vive, que mora num apartamento exíguo, que gasta o salário pagando impostos, que ama, que sofre, que chama o sonho de Realidade. O sonho é isso: o véu das ilusões, a fama momentânea, o dia dos autógrafos. E é mais: um pouco de utopia porque escrever é dar esperança, é saber que a criança sem teto e sem pão, ainda assim, sorri com uma canção.
                  O sonho é essa coisa doida dentro da gente, querendo explodir de contente, querendo semear outros sonhos no resto das gentes. Escrevo para acordar, para saber que ainda existe na prática, o verbo “Amar”. Escrevo em ritmo e rima, feito fosse uma menina na ciranda, fosse eu dançarina. E assim, eu canto: porque o amor é tanto, e a vida pequenina. A página em branco? Minha roupa de bailarina, meu fru-fru, meu palco de cantora, minha ode amadora. Sou ela, a página a ser escrita. E escrevendo vou nascendo, vou juntando os cacos de mim mesma, vou sendo outra e eu ao mesmo tempo. Eu sou a página e a letra. Eu sou a  Musa e a Poeta, o vaso que Deus preencheu com as canções do mundo. Escrevendo, vou sonhando os sonhos de Deus assim, de pouquinho em pouquinho. E sonhando, vou criando o que Deus em sua infinita entrega, quer do sonhador. Sim, Abuela, “o sonho está só começando”... numa página em branco...

Meus queridos pais, por Marta Peixoto.

É a primeira vez que lhes escrevo depois que vocês partiram porque senti necessidade de fazê-lo, de demonstrar, por escrito, verbalmente, todo o meu carinho o que antes nunca consegui fazer.
Vou contar-lhes o que me aconteceu e é algo que vejo, muito facilmente, sendo feito por muita gente; uma de minhas noras e filhas dizem, simplesmente, esta frase: eu te amo! Mas eu nunca consegui dizê-lo!
Agora, num curso de literatura de autoria feminina que entrei, por sugestão da Almudena, minha amiga espanhola, me deparei com um tema para fazer em casa : escrever uma carta.
Aceitei prontamente e como sempre gostei de escrever e receber cartas me sentei calmamente em casa e comecei a escrever, mas aí pensei: escrever para quem? Escrever o quê? Visto que todas as colegas ouviriam o que eu escrevesse  e como seria a crítica da professora e das colegas? .
E nada saiu. Umas palavras e nada mais. A timidez venceu naquele momento.
Fui à aula seguinte e confessei à professora que não tinha conseguido escrever embora tivesse escrito inúmeras cartas durante uma época de minha vida e tenha, em casa, cartas de pessoas conhecidas do mundo intelectual dirigidas a meu pai.
A professora sorriu e durante a aula foi algo tão emocionante ouvir as colegas lerem suas cartas com tanto carinho, tanto sentimento e nenhuma timidez. Eram sorrisos, palmas e olhares; todas eram lindas dirigidas para as mais diversas pessoas, a maioria para as de sua família talvez.
Então, enchi-me de coragem e estou eu a escrever-lhes o que gostaria de ter-lhes dito, em vida, não só demonstrado o que era evidente, sem dúvida, que sou muito grata a vocês por tudo o que me ensinaram,os valores culturais que me transmitiram ,os cursos que me pagaram e tudo o que me proporcionaram e a meus filhos depois.
Mas o que gostaria de deixar-lhes bem claro é que hoje tenho, na memória, algo doce e terno de momentos vividos com vocês naquelas cidades onde moramos e com o coração apertado de saudades lhes digo: “eu amo vocês”!Obrigada!
Carta a uma jovem sonhadora, por Irene Maria Guerra Albornoz.

Porto Alegre, 21 de março de 2016.
Querida jovem,
Lembro que, desde tua primeira infância, cedo mesmo, trazias em ti uma necessidade de aprovação. Querias muito ser aceita.
Aceita pelo irmão do meio. No pátio da casa, ele, o primo e os dois inseparáveis amigos, jogavam futebol ou disputavam campeonatos de bolita. Na garagem, as partidas de jogo de botão. Na piscina, os saltos pretendidos ornamentais. Tudo era gritaria, barulho, movimento e diversão. Desejavas participar da brincadeira proibida. Da janela, apenas observavas.
Aceita pela mãe virginiana, do lar, prendada, organizada, mulher de um homem só. Estudavas com a mãe, que te explicava com as próprias palavras, as lições ditadas pela professora do grupo escolar. Com ela aprendeste as artes e ofícios domésticos.
Aceita pela irmã mais velha, bonita, alegre, simpática, sociável, culta, bailarina, pianista, poliglota, extrovertida, enfim, brilhante. Foi ela quem descortinou para ti o mundo das letras e da imaginação.
Aceita pelo pai, empresário bem-sucedido, trabalhador, provedor, esportista, inteligente e charmoso, teu ídolo. Foi o pai quem te ensinou a nadar, a gostar dos números e de contar histórias e estórias.
Aceita pelo irmão que saiu de casa aos 15 anos para estudar na capital, um respeitável e desconhecido senhor.
No turbilhão da adolescência foste invadida por novos sentimentos e inusitadas sensações, mas, sobretudo, pelo medo. Medo de não ser amada. Medo de não saber o que fazer para sobreviver. Medo de não ter como sobreviver. Medo de errar. Medo de arriscar. Medo de transgredir. E, apesar dos pesares, ser aceita.
Querias ser “mãe de filhos”, bailarina, cantora, pianista, “miss qualquer coisa”, médica, engenheira, campeã de natação e tênis, costurar, cozinhar, tricotar, escrever, viajar, dominar o inglês e o francês, enfim, querias tudo. Querias abraçar o mundo e deixar nele marcada tua presença. Nesse tempo, o mundo se dividia entre os bons e os maus.
O teste vocacional aplicado no ginásio em nada te ajudou, pois tinhas condições de ser tudo o que desejavas e ainda muito mais. Tantas decisões a tomar, tantas perguntas sem respostas, tantas dúvidas.
Teu ídolo caiu quando descobriste sua infidelidade à tua mãe. Tua família não era perfeita. As pessoas não eram perfeitas. O mundo não era perfeito. Ficaste infeliz e deprimida. Não percebeste, então, quão liberadora fora essa descoberta: tu podias errar! Estava permitido!
Não obstante, trilhaste um caminho, ao mesmo tempo, conservador e revolucionário. Cresceste, namoraste, te apaixonaste, te decepcionaste, choraste, te despedaçaste, voltaste a namorar, te casaste, fizeste filhos, trabalhaste, enlouqueceste, desejaste matar, te encorajaste, te separaste, retomaste teus estudos, trabalhaste, amaste, te graduaste, abriste caminhos, acertaste, erraste, trabalhaste, choraste, desejaste morrer, riste, gargalhaste, cantaste, viajaste, estudaste, te graduaste outra vez, te orgulhaste, trabalhaste ainda e, por fim, sobreviveste e voltaste à solitude.
Hoje, o bem e o mal estão onde estavam desde sempre: dentro de ti. Confirmaste a veracidade dos versos do catalão Joan Manuel Serrat, que tomando emprestadas as palavras do poeta sevilhano Antonio Machado, cantou “Caminante, no hay camino, se hace camino al andar”. Não tens respostas para tuas perguntas. Tens as respostas que deste a cada uma nas circunstâncias daquele momento. Tuas dúvidas nunca se tornarão certezas. Tens as lembranças afetivas do que viveste naquela situação. Não mais dependes da aceitação alheia. Descobriste que estás em paz contigo mesma. Não precisas da opinião, nem da aprovação dos outros. Não te arrependes de teus erros, só daquilo que deixaste de fazer. Conquistaste, afinal, tua tão ansiada liberdade.
Lembro, sim, embora ao fitar o espelho, corpo cansado e gasto, não mais reconheça tua imagem, jovem sonhadora que ainda habita em mim.

Com ternura, Irene Maria.

quinta-feira, 7 de abril de 2016

Carta à minha avó, por Lívia Petry.

Abuela, sempre gostei de te chamar assim, em espanhol mesmo, fosse isso em memória da Vó Maria que veio da Espanha junto com a mãe dela num navio, fosse porque tu lembras as avós de Buenos Aires, tu que gosta tanto daquela cidade. Tu e o Vô podiam ser argentinos: o Vô, com o lenço ao pescoço, escutando ora uma ópera, ora Gardel, e tu, sempre tão chic, elegante, como se fosse tomar o chá das cinco no Plaza.
         Tu sempre serás minha Abuela do coração. Lembro-me de nós duas, sentadas em cadeiras de palha e vime, na sacada da casa da praia, tu me lendo tuas histórias policiais, e eu criança, opinando sobre elas. Lembro do nosso encontro, eu com dezesseis anos, tu já idosa, e nós duas olhando fixamente um quadro na parede. Subitamente uma de nós começou a contar uma história baseada na pintura, e a outra, continuou de seguida a história, até que ficássemos ambas, novamente em silêncio.
           Tu, a única a entender a minha loucura de escritora, minha necessidade de ficar sozinha, minha paixão pelos livros. Tu fundaste o Núcleo da Hora do Conto na Faculdade de Biblioteconomia da UFRGS. Eu fundei a Trupe Quem Conta um Conto –contadores de histórias – junto com mais cinco colegas. Tu escreveste a Coleção Misterinho para a Editora Sulina. Eu escrevi e publiquei quatro livros, dentre eles, um infanto-juvenil, bem ao teu gosto.
         Nós duas, Vó, temos os mesmos defeitos: odiamos serviço doméstico, somos capazes de bajular a empregada para que ela não nos abandone. Eu e tu adoramos crianças, mas ao longe, que não venham atrapalhar nossas leituras! Somos Vó, igualmente egoístas quando estamos escrevendo ou montando uma aula. Criaturas carentes não nos entendem. Maridos e namorados idem. Todos ficam enciumados, porque somos tão parecidas e tão devotadas aos nossos personagens. A escrita nos apaixona.
          Somos capazes mesmo de conhecer o interior de cada um, e expor em palavras as feridas, e curar nossa raiva, o desejo de vingança, as tristezas eternas, com um simples canetaço. Indicador e polegar segurando a caneta, escorrendo a baba do demônio, escorrendo o juízo de Deus, e nós, Vó, no meio do redemoinho, como Riobaldo, como o velho Guimarães Rosa.
             Se é de Deus esse dom? Deve de ser. Mas deixemos Deus quieto em seu canto. Que eu sei, detestas essa religiosidade toda. Eu e tu Vó, nascemos do mesmo barro, do mesmo pé de Amoreira em flor. Eu e tu Vó, somos guerreiras, e ainda assim caímos doentes apenas para sermos cuidadas. Somos eu e tu duas rebeldes em tempos diferentes, só isso. E nosso paraíso fica a pouca distância dos olhos, nosso paraíso fica num livro. Não um livro qualquer, mas o livro da vida.

             Pororom, Piririm, esta carta chegou ao fim. 
Carta para a amada, por marian pessah.

Porto Alegre, 16 de março
 Clodet, amada, estou escrevendo para te agradecer. Sim, eu sei que já falamos, mas quando eu escrevo, reflito sobre o assunto, tu sabes, escrever é deslizar-se no tempo, esticá-lo e, ao mesmo tempo, escorregar nele. Assim as palavras absorvem as ideias e o meu mau humor se desfaz.
Da última vez que conversamos bem sabes o quanto eu estava agoniada, chateada. Dentro de uma nuvem. E tu, com a tua sensibilidade habitual, afastaste aquela nebulosidade que me impedia ver. Como não te agradecer também por escrito? Como não te amar?
Sim. Não está fácil, tu me dizias. Depois de duas décadas de ativismo feminista voltar à escola! Sabemos que a academia é um berço machista por excelência e, além do mais, hierárquico! Quase uma redundância. Quem está à frente é o professor (porra, neste semestre não tenho UMA professora) e é ele quem fala, quem está sentado deve escutar.
Mas como tu sabes, estou me desafiando no dia a dia. Embora, sexta-feira, seja o pior de todos. O professor, fazendo gracinha, contava que uma vez estava na Nicarágua conversando com um cara num boteco.  Aí, o tal do “lugareño”, falou assinalando uma mulher e disse que o deixava como a um touro. Como se faz para não estourar de raiva e indignação?  Como se faz para caminhar só pela via da literatura deixando a um lado a via da consciência? Aquela que nos salva, nos protege e que tanto me custou cultivar no meu jardim cerebral.
É claro que me revoltei! E como! Mais uma vez levantei a mão (integrando-me àquele circo Universal – tão uni  e nada plural) e falei do meu descontentamento. O ser letrado respondeu com aquela ironia típica dizendo que num boteco não iria encontrar poeta. Só lhe faltava aquele sorrisinho de lado e falar para os poucos guris da turma: - bate aqui!
Eu, indignada à enésima potencia, subi o tom e retruquei. Obvio que não vai encontrar poeta no bar – ou quem sabe? Já encontrei filósofo bêbado num ônibus em Natal, depois da meia-noite. Mas ele não poderia reproduzir assim, com essa leveza, aquela frase tão agressiva. Acrescentei que os feminicídios – será que o ser letrado conhecia essa palavra? Pior, o conceito? – na América Central são gravíssimos. Ainda tenho as palavras da Melisa dizendo, gritando, chorando, cuspindo que todas podemos ser assassinadas e essa foi o mote com o qual fizemos as fotos em Honduras: Poderia ser eu. De fato, tem apenas duas semanas que assassinaram a Berta e a Jéssica mandando mails pedindo, gritando, denunciando e clamando por ajuda internacional.
No dia seguinte continuei pensando, na próxima vez vou dizer ao professor para trocar a palavra mulher por negro, por pobre, por judeu, por indígena. Vamos ver se trocando as letras de lugar, o ser entende de injustiças.
Quanto bem me fez conversar contigo e desabafar. Obrigada mais uma vez por estar junto, por me mostrar que faço bem em me revoltar e em falar. Que não estou sozinha. Sei. Nunca sairão as palavras apropriadas na hora certa; mas, pior, é não falar e deixar aquele vazio. Aquela fala grotesca de um homem dando risada das mulheres, na frente de uma audiência de 40 pessoas, dentre as quais, pelo menos 30 somos o objeto da piada. Interromper também faz parte da educação.
No pasarán! Né, Clo, como a gente grita nas ruas, mas para que não passem a gente não pode nunca baixar os braços. O sistema, esse patriarcado tão feroz, tão injusto, que causa tanta dor, enfia-se por todos os lados e o tempo todo. Por isso o melhor antídoto é a nossa união.
Te abraço muito e em breve já estaremos juntas.
Te amo,
marian.
Carta para a minha mãe, por Lisiane Andriolli Danieli.

Porto Alegre, 14 de março de 2016
Mãe,
Te escrevo porque estou angustiada. Desde nova, sempre que chegava perto de ti tinha certeza da tua leitura instantânea de meus sentimentos. Hoje, na distância, não podes me descobrir. Os últimos dias têm sido difíceis. O coração aperta e mesmo o vento quase frio batendo em meu rosto não é capaz de me livrar desse nó na garganta.
Quando me sentava contigo enquanto fazias tricô, queria conseguir decifrar a sensação que tinhas. Os fios passando de um lado ao outro, o novelo diminuindo e algo novo se formando. Teu olhar perdido para a porta anunciava tua ansiedade. Te imagino nesse processo em noites quase solitárias à minha espera. Não voltarei mais todas às vezes. Eu cresci.
Sempre que recordo da minha infância, me arrependo dos bilhetes que escrevi para colocar no teu travesseiro. Não eram cartas de amor, eram de profunda hostilidade, e agora entendo o meu temor em tornar-me, assim como tu, mãe. Percebo meu erro em te culpar por todas as funções que te impunhas, por tudo que eu tinha certeza que também deveria fazer. Com meu desenvolvimento, tiveste a chance de me mostrar que tu eras mais que mãe, mais que dona de casa, mais que esposa. És uma mulher forte, batalhadora, teimosa, controladora. És o melhor que poderias ter sido.
O que sinto agora é também alegria, porque sei que tu sempre vais estar comigo. Tu vais me apoiar. E eu estou contigo. Tudo que tu me ensinaste está em mim, e tu também aprendeste comigo. Crescemos e mudamos juntas. Continuaremos assim.
Com todo amor do mundo.
Lisiane.