quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

Carmen Martín Gaite em 1982 escreveu uma carta linda para sua mãe, um exercício de imaginação, onde ela, desde o East River, debruçada sobre a janela,  alcançava a mãe numa janela da memória e compreendia, finalmente, os anseios e desejos de fuga, solidão e imaginação daquela mulher. As janelas que nos fazem sonhar, duvidar, imaginar.  Hoje escrevi uma carta de fim de ano para a Gaite contando das mulheres ventaneras de Brasília.



Brasília, 31 de janeiro de 2014.

Minha querida Carmen Martín Gaite,

Neste ano da graça de 2014 resolvi me dar um presente. Depois de compreender que a muitos anos cumpro diversas tarefas por dia em trabalhos que não amo exatamente para poder ter condições de dedicar algumas horas semanais aos trabalhos que realmente amo – ler, escrever e falar sobre as  mulheres com outras mulheres – entendi, finalmente, que estava fazendo tudo errado e que não podia mais adiar algumas mudanças. O presente que eu me dei foi a criação em Brasília do Grupo de Literatura de Autoria Feminina. Na época, duvidando da iniciativa, ouvi da Ana Liési que eu era uma mulher de pouca fé e termino este ano certa de que sou uma mulher de muita fé. Convoquei as mulheres e elas compareceram. A perspectiva do trabalho era a sua, Gaite, de refletir sobre as mulheres ventaneras, sobre as mulheres que, na janela, espicham o olho e a alma através da janela e se permitem imaginar, sonhar e escrever. E da perspectiva da importância dos espelhos na vida das mulheres que crescem e se transformam através de relações especulares com outras mulheres. Como num conto seu onde a protagonista que se encontra num dilema existencial e não sabe como continuar. Ela vai à janela numa noite enluarada e num prédio em frente há também uma mulher debruçada em devaneios, e sobre elas uma lua cheia.
Lemos inúmeras escritoras mulheres e falamos sobre nós e depois produzimos textos sobre as histórias contadas, ouvidas, lidas. As leituras sobre a necessidade de uma atenção imprescindível da criação das genealogias femininas e de um pacto de affidamento nos levaram aos caminhos de Eleusis onde nos juntamos à Deméter que buscava sua filha Perséfone e começamos este caminho sem volta que nos ensinou a questionar sobre as complexas relações entre as mães e as filhas, estruturantes para todas nós.
Na festa de final de ano, no dia do amigo oculto, tirei da bolsa um espelhinho pequeno, redondo e fiz com que cada uma se olhasse no espelho e visse, ali no reflexo mágico, o resultado dos meses de trabalho e estudo. Todas voaram pela janela infinita, todas cresceram e se transformaram em mulheres maravilhosas. Curas de saúde aconteceram, livros foram escritos e publicados durante o processo, textos foram publicados no blog, mudanças de rumos de vidas, grandes e inadiáveis iniciativas para melhoras e transformações. Éramos mulheres lendo mulheres e escrevendo, mas éramos contadoras de histórias tentando compreender quem somos e o que desejamos.
Vamos agora escrever juntas o livro sobre esta experiência, Gaite. A casa onde trabalhamos, cenário dos nossos encontros mágicos, onde tomamos chá de hibiscos e bolo de maçã compartilhando o verdadeiro pão da alma e as romãs transmutadoras, não existe mais, foi desmontada e permanece agora intacta na nossa memória e nos nossos corações. E vamos continuar, abrindo janelas virtuais já que o trabalho se impõe e continua soberano nas nossas vidas.
Escrevo-lhe para contar, minha querida Gaite, que quando abrimos as janelas nem imaginamos que milagres podem acontecer, e que quando nos olhamos nos espelhos junto com as outras mulheres, já somos outras, inimagináveis e grandiosas.
Eu, de minha parte, agradeço sua presença literária em nossas vidas, transformada numa mulher de muita fé e agradecida à comunidade das mulheres leitoras e escritoras que transformou a minha existência numa verdadeira festa, e me fez encontrar, definitivamente com os meus pares no mundo e por isto acabo este ano em profunda gratidão.
Obrigada, mulheres ventaneras de Brasília, foi um privilégio, uma emoção e uma alegria imensa cada minuto da nossa convivência.
Abertos os trabalhos para 2015!
Feliz ano novo a todas.
Da mestra com carinho.

Lélia Almeida.

domingo, 21 de dezembro de 2014



Um texto maravilhoso da Ana Liési Thurler e seu pacto de "affidamento".





“Seis balas”, por Ana Liési Thurler.

Para Cecília, que me permitiu anunciar a esperança de uma sociedade sem opressores, nem oprimidas.

“Em sua infância, comprimiram seu corpo, seu coração, seu espírito, num espartilho de princípios e interdições. Ensinaram-na a apertar ela mesma, com firmeza os cordões. Subsistia nela uma mulher corajosa e arrebatada; mas contrafeita, mutilada e estranha a si própria.” Simone de Beauvoir, em Uma morte tão suave.

O telefone estridente me trouxe a notícia que escandalizou a cidade e estarreceu a família. Só sei que me deu esperança. Uma ordem que parece eterna. Presidida por um equilíbrio perfeito, mas precário. Quem pode suspeitar os estranhos roedores em escondidos escaninhos? Até que um dia. Pois  há, felizmente um dia. Vai se gestando no silêncio, nos porões e mesmo à luz mais meridiana. Vai se fazendo esse dia. O velho se rompe e a ordem desaba. O equilíbrio frágil se esfacela. Há, felizmente, um dia. Às vésperas do século XXI, Gil espreitava Godot: “ET e todos os santos, valei-nos, livrai-nos deste tempo escuro.”

Cecília explorada, esquiva, esperando Godot.  

A vida inteira Cecília esteve exposta a constantes apelos. O pó em todos os cantos, o bolo esfarelado sobre a toalha estampada, o vestido esgarçado, as crianças sempre esfomeadas, uma esganação. Espinafres, espigas de milho, ovos estrelados. Tanto esforço! Um esfregar sem fim: pernas de criança, vidraças de janela, chão de cozinha.  Dele Cecília passou a detestar até os menores gestos. Cada um dizia do tamanho, da força e do poder de José. Incomodava-a quando ele tomava chimarrão na varanda, escarrapachando-se na espreguiçadeira. Fazia escudo com suas panelas e atrás delas de escondia. Buscava proteção do olhar que queria esquadrinhar seus porões. Da palavra que queria escarafunchar sua alma.
- Agora, não !
Agora precisava estar atenta para o leite não derramar, para o feijão não queimar. Entre escumadeiras, espanadores, escovas, ela passou a vida. A espuma no tanque nunca engoliu a montanha de roupas. Não tinha escapatória: se uma criança espirrava, lá vinha um esbregue, “tu não cuida dessas crianças!” E humilhações e espancamentos.
A mulher, mão-de-obra doméstica gratuita.  Reprodutora. O corpo carregando todas as marcas. Dos hematomas às estrias, às varizes. A alma carregando tantas marcas, tantas sombras. O inverno contaminou todas as estações e sua vida mergulhada em neblinas. Um esfriamento tomara conta dela.  Inútil achegar-se ao fogão a lenha.  O encolhimento da mulher é o preço da estabilidade dessa ordem, que se quer intocável.
“A vida é assim mesmo”, dizia lembrando a mãe, Luiza, imagem de mulher. Cecília tantas Marias. Na minha memória mais distante, lá está a mãe de Cecília, como um duende sem jamais deixar de fazer prognósticos sombrios. Em todas as suas palavras estava entredito: não há óculos cor-de-rosa que esconda a maldade e a feiúra do mundo. Um coração amargurado abrigava os princípios rígidos que defendia.

Uma genealogia feminina.
Luiza se curvara a todos os padrões que a esmagavam, como esmagaram sua mãe Antonia, sua avó Francisca. E Luiza acreditava ser sua missão passar esses padrões para suas filhas.  Na escola da obediência, quem estrilaria?
- Vida de mulher é assim mesmo, não tem nada que reclamar!
- Homem é diferente: homem é homem!

Cecília espoliada ex-modelar esposa, ex-oprimida.

José, a imagem do gaúcho, grande e forte, comendo churrasco gordo. Vaidoso, bigode enorme, cabelo organizado com brilhantina, peito estofado. Ao menos em seus domínios, precisava se sentir forte. Era lá que destilava sua ira, distribuía murros, cobrava de Cecília tudo que a vida lhe sonegara. Nem suspeitava, mas caminhava rumo à catástrofe. O opressor carrega em si, também sua própria destruição.
Apanhar fazia parte da vida de Cecília, oprimida pelo oprimido. Nada fazia contra aquele estado de subjugamento. José há muito dormia com o revólver debaixo do travesseiro, ameaçando matá-la, em caso de suspeita de ela pretender deixá-lo. Até José chegar ao último ponto suportável de apropriação. A vida física é o limite. Cecília se entregara sem reservas nem alardes, mas sabia ser um dever buscar a sobrevivência. Com isso, inesperadamente reagiu. Anoitecia naquele  03 de dezembro de 1983, no interior do Rio Grande do Sul. Ele decidia sobre a vida e a morte dela e anunciou que a hora chegara. Abriu a gaveta onde guardava o revólver. Foi até a porta da sala, chaveá-la. Nesse mesmo tempo, ela encheu-se de coragem, pegou o revólver na gaveta aberta e correu para a porta dos fundos. Transtornada, resistiu a entregar-lhe a arma que ele tentava recuperar. Com força multiplicada, manteve a arma e misturou ao apito do trem que passava, seis estampidos que o bairro silencioso não compreendeu. Vinte e quatro anos de casamento, conforme todos os cânones.  Até que a morte os separou. Cecília nunca infringiu nenhuma regra do jogo. Nem as discutiu. Até que ela quase se viu com a vida roubada.  
Os cinco filhos depuseram e testemunharam a favor de Cecília, em 03 de setembro de 1987, no Tribunal em que ela foi julgada e absolvida.  
            A última oprimida, representação do encolhimento humano, da humildade mais radical, da autoestima mais destroçada, destrói seu opressor. Quebra-se a cadeia da dominação? Não sei. Sei que o ser humano é um bicho estranho, que traz sempre consigo a capacidade de surpreender. Por mais submetido, sobrevive sempre em alguma secreta região, um espaço de liberdade e a possibilidade de dizer “não”.









Ontem terminamos os trabalhos de 2014 no Curso de Literatura de autoria Feminina em Brasília com chave de ouro. Ainda imersas nos trabalhos eleusinos lemos "A asa esquerda do anjo" da Lya Luft e "O amante" da Marguerite Duras. Dois romances impressionantes sobre a questão das mães e das filhas. O bicho que Gisela expele no final do livro da Lya Luft nos lembrou a chágara do conto da Rosario Ferré, o que serão estes vermes que as autoras precisaram expelir como metáforas ou sintomas nos anos 70-80? Eles expressavam exatamente o quê? Seriam sintomas da ansiedade da autoria? E que leite é este que se deseja sem fim? Quais as demandas infinitas e impossíveis entre as mães e as filhas? E por que que um livro que se chama o amante poderia se chamar a mãe? Ainda bem que aqui ninguém responde nada, aqui só temos todas as perguntas! Um luxo este ano de trabalho, meninas, um luxo estar e aprender com vocês! Agora férias! Um Feliz Natal cheio de "affidamento" entre nós, um 2015 cheio de realizações, e a mais importante delas: o nosso reencontro em fevereiro!

terça-feira, 9 de dezembro de 2014


Da produção livre de Rosângela Vieira Rocha, do Grupo de Literatura de Autoria Feminina de Brasília que nos brinda com estes “Caramelos de Natal”, caramelos nada doces e, como sempre, uma narrativa de tirar o fôlego.




“Caramelos de Natal”, por Rosângela Vieira Rocha.

 Só se falava no baile. As costureiras andavam curvadas, de tanto serviço. “Os Intrépidos”, o conjunto musical mais prestigiado da região, tinha sido contratado para tocar. As moças da cidade esperavam a vinda de muitos rapazes de fora.
Nazaré resolvera mandar tingir de preto os seus sapatos brancos, já encardidos e meio gastos. Sapatos pretos ficariam melhores com o vestido novo, de tafetá azul-celeste. Queria estar linda para a festa, aliás, como as primas e as outras irmãs. O sapateiro era longe e fechava cedo aos sábados. Como já havia feito cachinhos no cabelo, não podia mais sair de casa, antes que secassem.
O jeito era pedir à irmã caçula que buscasse a encomenda, não sem antes lhe dizer que deixasse os seus próprios sapatos atrás da porta do quarto, para o caso de Papai Noel resolver passar por lá mais cedo.
Mesmo estranhando a sugestão da irmã mais velha, Gilda pôs suas sandálias no lugar indicado e só depois saiu para fazer o mandado. Não estava habituada a esperar a visita de Noel de dia, muito menos na véspera do Natal, mas acreditava em tudo que as mais velhas diziam. Adorava Nazaré e cumpria suas ordens à risca.
No caminho, parou na casa da tia para pegar a pinça de sobrancelha emprestada, a pedido da irmã do meio. O sol brilhava timidamente, depois da forte tempestade da noite anterior. Foi andando devagar, saltando as poças d’água e reparando na areia azulada deixada pela enxurrada. Gostava muito de areia brilhosa, matinhos, folhinhas, pequenas flores, insetos que apareciam depois das chuvas, como joaninhas e besouros azuis, sempre acreditando que algum dia encontraria um tesouro oculto no meio dessas coisas, um anel, uma moeda de ouro ou de prata, uma carteira com dinheiro, algo surpreendente e mágico que mudaria sua vida para sempre.
Cumprida a incumbência, voltou para casa, com o pacote embrulhado em folha de jornal. No caminho, andando na calçada, podia sentir o delicioso cheiro de carne assada vindo de dentro das casas. Ia treinando o nariz, tentando adivinhar se assavam leitoa ou peru. E havia o delicioso perfume de canela dos bolos e broas de fubá.
Entregou à irmã o embrulho e foi para o quintal ver se encontrava alguma novidade nos canteiros de couve. Logo depois escutou a voz de Nazaré, chamando-a para ver o que havia na sandália que deixara atrás da porta.
Veio correndo e, quase sem fôlego, encontrou a linda caixa de doces de leite cortados em quadradinhos, embrulhados em papel celofane. A irmã do meio, sempre escandalosa, gesticulava e pulava, mostrando a sua alegria com o presente antecipado que o apressado Papai Noel deixara para a caçula. Abraçou a caixa, encantada. Nem sequer pensou em abri-la, pois queria usufruir mais da surpresa e, deixando-a intata, prolongava o mistério.
Subiu num galho da goiabeira, ainda molhado de chuva, com a caixa de doces debaixo do braço. Apalpava-a, cheirava-a. Como poderia Papai Noel ter entrado na casa sem que ninguém o visse? Não era maravilhoso ele ter aproveitado o tempo que ela esteve fora para deixar o presente? Só mesmo um mago como ele o faria.
Depois colheu goiabas verdes, que adorava e comia escondido da mãe, enchendo os bolsos do vestido. Procurou tomatinhos do mato, na rama que cobria a cerca de bambu, para fazer molho. Cada planta do quintal era apalpada, mimada, acariciada. Conversava com todas, inventava histórias compridas para cada uma delas.
Havia sombras, quando entrou de novo na casa. Era quase noite e ninguém tinha acendido a luz da varanda que dava para o quintal. Uma das irmãs lavava vasilhas, de cabeça baixa. Gilda procurou as outras em todos os cômodos, mas não viu ninguém. Onde estariam?
Depois escutou barulho, vindo do quarto do casal. A voz zangada do pai só era abafada pelo arrastar de cadeiras. Parecia furioso, mas ela não sabia por quê. Às vezes chegava a ouvir os gritos estridentes da mãe. Escondeu-se no seu quarto, fechando a porta de mansinho, sem nenhum ruído. Esticou-se na sua cama de roupa mesmo e ficou bem quieta, abraçada à caixa de doces. Cobriu a cabeça com o travesseiro, tapando bem os ouvidos.
      Logo a discussão tomou toda a casa. O pai investia contra os sofás, quebrava os quadros da parede, dava pontapés no aparelho de TV e jogava longe as louças do armário. A mãe acompanhava os movimentos dele, seguindo-o sempre, falando alto. Súbito, ele percebeu que tinha cortado a mão num copo e começou a balançá-la nas paredes, espalhando pingos de sangue por todos os lados.
Começou a gritar o seu nome, Gilda, cadê você, quero conversar com você, onde foi que se meteu? Ele esmurrava a porta do quarto, abra, abra, você não está dormindo, é muito cedo, saia daí já! A menina cobria a cabeça com força, apertando o travesseiro, mas ele não desistia. Até que o ferrolho cedeu e ele puxou-a da cama, à força. Vendo que ela não soltava a caixa de doces, sua raiva ia aumentando. Obrigou-a a ir para a sala e, diante da mulher, lhe disse que tinha uma coisa muito séria para contar, estava passando da hora de ela saber que Papai Noel não existe, nunca existira, tudo não passava de uma bobagem, ele mesmo tinha comprado os doces numa padaria da cidade vizinha, ela já tinha idade para deixar de ser boba, pois não era mais um bebê.
 Depois tudo ficou silencioso e ela desceu o quintal até a beira do rio, procurando novos brotos na rama de abóbora. Deixou-se ficar ali um tempo enorme, ouvindo o ruído brando da água passando, passando, para onde iria? Lentamente, alisou pela última vez a caixa, ainda sem abrir, e ficou assistindo à sua descida, rio abaixo.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

Um conto da Edna Vieira Rocha de Rezende, com a delicadeza e originalidade que caracterizam as piscianas como ela!




“Sob o signo de Peixes”, por  Edna Vieira Rocha de Rezende.

Imediatamente após o convite, eu me lembrei do livro grande do meu avô, que ficava dentro da gaveta da mesa de jantar e de cortar costura, localizada ao lado do filtro Fiel. Entre as páginas do livro, uma coletânea do Jornal do Commércio que abrangia o ano transcorrido após a data da independência, havia toda espécie de coisas: retratos muito antigos, convites de casamento, de enterros, santinhos de primeira comunhão, volantes de propaganda eleitoral, uma pena de pavão e outra de arara, e, naturalmente, os recortes preferidos.
Na minha infância, fingindo que estava com sede, chegava ao filtro e me postava diante da mesa, como estátua, até que vovó, percebendo o desejo que extravasava, dizia “pode”, vasculhando com o olhar os outros cômodos da casa, para se certificar de que meu avô tinha saído. Eu ia direto ao exemplar do dia 9 de março de 1922, uma quinta-feira, que abrigava a folha de papel almaço, acetinado. Na primeira página, os dizeres: “O Calendário da Revolução – Decretado pela Convenção em 1792, só foi abolido por Napoleão 13 anos depois”. No verso e nas demais páginas, doze gravuras se expunham, em grupos de quatro. Representavam os meses do ano, cuja duração parecia coincidir com a dos signos do zodíaco: Pluvioso, Ventoso, Germinal, Floreal, Prairial, Messidor, Termidor, Frutidor, Vendemiário, Brumário, Frimário e Nivoso.
Por causa dessas ilustrações, me afeiçoei à história da França, sobretudo ao estudo da Revolução Francesa e dos fatos posteriores a ela. Assim, de férias em outra cidade, julguei-me predestinada quando conheci Thiers, o rapaz que me fizera o convite. Não levei em consideração o papel repressor que Louis Adolphe Thiers desempenhara contra a Comuna de Paris. Afinal, o Thiers que eu conheci era brasileiro, moreno de olhos azuis, muito bem educado.
Demorei um pouco a responder, porque a silhueta rechonchuda e o rosto apreensivo da mulher do Calendário vieram-me à memória. Trajava um vestido da cor sépia, que contrastava com o mar claro do fundo. Uma das mãos, enérgica, segurava esvoaçante véu branco. A alça trançada de uma cesta enfeitava o braço direito, sob o qual se alongava um anzol. Na superfície da cesta, alguns peixes exibiam suas pequenas caudas. À esquerda, juncos inclinados pelo vento erguiam-se de um cesto maior. Era a efígie que representava o mês Ventoso, de 19 de fevereiro a 20 de março, período que abarca o dia do meu aniversário. Sou de Peixes. 
- E então, você quer ir comigo ao Ventoso?
- Ventoso é um barzinho?
- Se você aceitar, saberá. Não, não é um barzinho.
- E quando iremos?
- Amanhã à noite.
Não podia imaginar a que lugar Thiers se referia. Não quis perguntar aos meus primos, fiquei sem graça. E na completa ignorância, saí de manhã, para comprar sapatos e roupas. Eu morava numa cidade muito pequena e não tinha acesso a coisas bonitas. Por isso, preferia reservar um pouco do meu parco salário de professora, e, se aparecesse alguma viagem, gastá-lo com produtos mais finos, para me exibir na minha cidade pobre, ainda que na missa das dez.
A bem da verdade, dessa feita o motivo do passeio fora outro. Estava mais ou menos apaixonada por um rapaz da minha cidade, que não estudava, não tinha emprego, mas era alto e de feições elegantes. Meu pai, contudo, não achava que o porte físico suprisse deficiências intelectuais ou financeiras e, taxando o rapaz de “gentinha”, se ofereceu para completar o valor da passagem até onde moravam meus tios, na esperança de que eu trocasse de namorado. Pode parecer cinismo, mas aceitei. Naquela época, para mim, era melhor ficar triste numa cidade diferente, do que chorar nas margens do riacho estreito, infenso às minhas lágrimas.
Conhecera Thiers há dois dias. Na primeira vez em que o vi, eu estava na pracinha com meu primo, um adolescente alegre. Ríamos porque, devido ao calor, os sorvetes pingavam e manchavam nossas roupas. Thiers nos olhou, foi até à confeitaria, e voltou com vários guardanapos. Agradeci-lhe a gentileza, e, após as apresentações e algumas delongas, ele me convidou para ir ao cinema. Fui, mas não sozinha. Por imposição dos meus tios, meu primo nos acompanhou. Se Thiers se decepcionou com esse fato, pelo menos não disse nada. Na segunda vez, fomos sozinhos à confeitaria, na tarde ensolarada. Depois disso, mais nada. Eu tentava açular o tempo para conhecer o Ventoso.   
Estava indócil, naquela manhã. Olhava as vitrines sem me fixar no que queria, naquilo de que precisava. Pensava em Thiers e no convite. Ventoso me parecia nome de barco, de cavalo, de mirante. Contudo, a cidade não tinha lago, muito menos mar. Nunca me falaram sobre hípicas e o mirante que eu já conhecia não se chamava assim. Meu primo me alertou:
- Você está desperdiçando seu tempo. Por que não compra a saia vinho e o mocassim vinho e branco? Você me disse que queria isso...
Olhei para a vitrine e gostei das peças. Poderia usá-las com meu conjunto de banlon branco. Diante de tanta harmonia, me veio à idéia ir ao cabeleireiro, ficar linda para conhecer o Ventoso e encantar Thiers. Despedi-me do primo e adentrei o salão mais sofisticado que eu já vira. Tive vontade de recuar, correndo, minha aparência talvez fosse canhestra, rir-se-iam de mim, eu era muito sem traquejo. Tarde demais, porém. A atendente, polida em excesso, me olhou de cima para baixo e, diante das minhas pretensões, me indicou uma moça bem maquiada, que foi decidindo:
- Seu cabelo, sendo pouco, ficará bonito se fizermos uns bucles, para armar o penteado. Nas unhas, esmalte rosa-choque.
Minha voz saiu tênue:
- Quero esmalte cor de vinho...
Ela me olhou, como se eu tivesse falado uma heresia. Eu não quis explicar nada e me encerrei no escudo dos tímidos, o mutismo absoluto. Muito sofri. Meu cabelo, curto, se alongava um pouco na nuca, até se desfazer em fios esbatidos. A cabeleireira enrolava os cachos e esmagava-os com prendedores de metal, cujas pontas quase me tocavam os ombros.
- Agora, você vai para o secador.
Muito mais tarde deduzi que a moça me castigara pela escolha do esmalte. No secador, os prendedores se esquentaram e queimavam-me a pele, sem piedade. Muda e envergonhada, deixei pra lá, tal como faço diante de situações adversas. Desempenhava, agora, o papel de bruxa sobre a fogueira, com muitos pecados, entre eles o de querer pintar as unhas com esmalte vinho.
Por volta das vinte horas, Thiers tocou a campainha. Eu já estava cansada, antes mesmo de sair. A maquiagem dera trabalho, a base muito bem espalhada para cobrir as manchas da minha nuca, marcas da ígnea aventura.
Thiers não estava de carro e, na calçada, me disse que o Ventoso se erguia a dois quarteirões dali. Não elogiou minhas roupas, nem o cabelo, fato que me causou estranheza. “Que coisa! Sofri com esse cabelinho mirrado, gastei todo meu dinheiro com a saia e o mocassim, que agora se enterra na poeira e se esgarça nas calçadas mal cuidadas, e ele nem nota?”
- Ainda está muito longe?
- Não. Na verdade, eis o Ventoso.
Confesso que não entendi. Tudo estava muito escuro, mas divisei um muro velho, com a argamassa carcomida, totalmente sem graça. Aqui e ali, algumas proeminências, como se fossem colunas. “Será alguma construção colonial?” Mergulhada nessas dúvidas, que somente a imaginação poderia gerar, me assustei quando percebi uma moça apoiada no muro. Apertei o braço de Thiers, em busca de apoio.
- O que é isso?
- O Ventoso, um muro para os namorados se acariciarem em paz. Um lugar no qual tudo é permitido, abraços, beijos, a gradação é enorme...
- Você não me deu a entender que se tratava de uma coisa assim. Por que eu? Levo jeito de oferecida, é isso?
- Não, não leva. Tanto que não tive coragem de descrever o Ventoso para você. Mas, já que estamos aqui...
- Não, não estamos aqui. Estamos em outro tempo, em outro espaço, nos quais você se fazia passar por bem educado e gentil. Vou-me embora.
Na tentativa de um abraço, o relógio de Thiers se desprendeu e acabou sorvido pela escuridão e pela poeira. Aproveitei o que para ele era um contratempo e retornei, sem olhar para trás. “Eu me enganei de novo. Como Thiers pôde proceder assim? Não tem sensibilidade, é louco varrido. A ousadia dele é sem limites. Por que pensou que eu iria me submeter, encostada no muro, como cariátide sem-vergonha?”
Não consegui dormir. O rosto de Thiers adquiria formas que se alternavam: anjo, demônio, sabiá, gavião, lírio, flor carnívora. E a cada imagem, meu sentimento por ele se modificava. Eu manipulava os fatos, inventava personagens que empurraram Thiers para protagonizar o horrível desfecho. Até que, exausta, me rendi.
O sol abriu as portas para a sanidade e me permitiu transpor o espaço melodramático. Thiers nunca estivera apaixonado por mim e eu, em verdade, também não o amava. Queria um substituto para meu namorado “gentinha” e vivera uma farsa.
Estava à mesa, no café da manhã, quando a campainha tocou. Era Thiers. Não desejava vê-lo, mas não quis levantar, em meus tios, a suspeita de que algo dera errado. Assim, fui recebê-lo. Constrangido, ele me disse:
- Sinto muito pelo que aconteceu ontem. Mas, sou sincero. Estou à procura de alguém que aceite aquele muro. Não quero me comprometer, não quero me apaixonar, sou apenas um estudante. Mas, se possível, gostaria que me perdoasse. Trouxe algo para você, para que possa se lembrar de mim sem rancor.
Recebi o embrulho das mãos dele, mas não o abri. Não disse uma palavra. Apenas olhei para aquele rosto que eu quisera amar e deixei que ele se fosse. Mais tarde, em meu quarto, desamarrei a fita e abri a caixa, com vontade de chorar. Era um pequeno paralelepípedo de acrílico, compacto e transparente, com uma estreita faixa branca que definia a base. Lá dentro, um peixinho alaranjado em seu cenário: um pouco de alga e algumas folhas pontiagudas, semelhantes às do junco. O enfeite desprendia carinho, como o que devia existir nas faces anjo, sabiá e lírio de Thiers.
Após todos esses anos, ainda tenho o meu peixe, que fica ao lado da coleção de miniaturas de navios. Às vezes me lembro de Thiers. As coincidências que cercaram nosso encontro fugaz me espantam: o nome do muro, os peixes e o junco na ilustração do mês Ventoso, meu signo zodiacal e o peixinho empalhado que Thiers me deu.

Meu signo é representado por dois peixes, ligados por um cordão de ouro, que, nadando em sentido contrário, indicam ambivalência. Há uma analogia flagrante entre a representação do meu signo e o enfeite: apesar da presença de um só kinguio, há outro peixinho imaginário, ligado ao seu duplo pelo fio de Thiers. Quando considero que Thiers quis apenas me devolver a autoestima, o peixinho visível sou eu. Se, contudo, Thiers pretendesse se dar a mim, o kinguio real seria ele. Tais considerações me levam aos eternos conflitos do meu signo, desta feita representados por uma indagação: quem está preso no paralelepípedo de acrílico, Thiers ou eu?

Da produção livre de Marinete Merss, do Curso de Literatura de Autoria Feminina em Brasília e sua emocionada declaração de genealogia e “affidamento” com Mercedes Sosa:


“Gracias a Mercedes Sosa”, por Marinete Merss:

No final dos anos 1970, chorei pela primeira vez com Mercedes. Lembro-me que tinha futebol na televisão e foi preciso intensa luta para que meu pai ordenasse: hoje ela assiste ao show. Ali, no escuro da sala de nossa casa, sozinha em frente à TV, o som baixinho para não atrapalhar os que já dormiam, ela me acolheu com sua voz terna, forte e cheia de energia.
Chorei por mais de uma hora inteira, completamente agradecida por meu pai ter me dado, o que só agora percebo, a conquista da menina-mulher por seus direitos: conhecer Mercedes Sosa. Não lembro quem jogava, mas a vitória foi nossa, minha e da Mercedes.
Com ela, aprendi a dor do povo latino-americano, aprendi que mulher embala filho com música de esperança: “Duerme, duerme negrito, que su máma está en el campo, negrito”. Nossas festas partidárias eram turbinadas com sua música, avivando sonhos por um mundo melhor.
Bertolt Brecht se tornou um amigo de todo dia, ao recitá-lo nos fez saber “que homens que lutam um dia são bons, mas os que lutam toda uma vida são imprescindíveis”. Nos cadernos universitários, registrei os versos que Mercedes escolhera para mostrar que a vida é batalha cotidiana feita de persistência.
Mais tarde, a mente cheia de ideologias, marchou comigo cantando o hino de nossa greve: “Sólo le pido a Diós”. Foram 57 dias de luta por uma educação melhor, dias de angústias, sofrimentos, mas o seu canto nos acalentava.
Com ela conheci Violeta Parra, compositora chilena elevada à condição de profeta por Mercedes, que sempre lançou ao mundo os poetas, enaltecendo seus versos com a doçura de sua voz e a firmeza de sua interpretação.
Com a canção “Gracias a la Vida” agradeço à vida por “ter me dado dois olhos, que quando os abro descubro as virtudes do homem que amo”. Assim, cantando com ela, consigo homenagear meus amores e reviver sentimentos intensos.

Obrigada, Mercedes, por ter me dado tanto. Prometo que a dor, a injustiça e a desigualdade não me serão indiferentes.

A partir das leituras de Chaucer sobre o que querem as mulheres, a instigante produção da Ana Liési sobre a pergunta que sempre se repete!




“Mulheres livres”, por Ana Liési Thurler.

Os homens insistiram sermos indecifráveis e nos ligaram a uma interrogação que reverberou no século XX, especialmente na voz e nos textos de Sigmund Freud: o que quer uma mulher? Atribuída a ele, essa questão foi colocada com precedência de seiscentos anos por Geoffrey Chaucer (1343-1400), em sua obra inacabada, Contos de Cantuária, iniciada em 1386 e publicada em 1475. Então, o autor apresenta no conto A mulher de Bath, Alice já se perguntado: que desejam, afinal, as mulheres?
Nas últimas décadas, as mulheres passamos mais e mais a refletir coletivamente. Então, uma auto-compreensão se expandiu e fortaleceu. E é como sujeito livre que as mulheres desejamos estar e agir no mundo. Sujeito de escolhas sobre nossas vidas e nossos corpos. Parece coisa simples e menor, mas foi – e continua sendo - questão de disputas ainda em nossos dias. Ao longo de milênios homens se apropriaram de nós, como  objetos de sua propriedade. Na figura do pai, do marido, do filho, do padre, do papa, do juiz, do desembargador, do médico, do ministro, do delegado. Decidiram por nós, decidiam, legislavam e ainda legislam sobre nós.
Enfim, o que queremos as mulheres? Com clareza, sabemos: liberdade sobre nossas vidas e nossos corpos. Relembremos os versos de Cecília Meireles:

“Liberdade — essa palavra
que o sonho humano alimenta:   
que não há ninguém que explique,
e ninguém que não entenda!”

Las chicas raras, as mulheres ventaneras, sim, explicamos. A liberdade é o direito — e o dever — intransferível de decidir sobre nossas vidas e nossos corpos, como sujeitos que deixaram a condição de menoridade, na qual obstinadamente o patriarcado pretendeu nos manter.

Depois da leitura do Hino Homérico à Deméter a produção sempre originalíssima de Patrícia Baikal:



“Hino moderno à Deméter – A Elêusis é ali”, por Patrícia Baikal.

Deméter era a deusa do Leblon. 
Sua filha de grossos tornozelos
 era a moça que Hades raptou.
Bem longe de Deméter, Perséfone
 vagava na areia de diamantes,
cacos que serviam para refletir
rara beleza nunca vista antes.
Quando no mar violento de ondas
verdes e azuladas, Perséfone
 brincava de lembrar de sua infância,
um homem procurado foi visto por
todos:  por aqueles que se banhavam
e ainda por outros que se rachavam
 no Sol quente, com seus biscoitos secos,
vendidos no duro labor ardente.
Ao ver o homem (ou deus?) com os braços
fortes e olhos de mesma cor do mar,
ela pensou: “ Em qual mar vou me banhar?”
Fascinada, andou sobre os cacos,
sem medo de cortar seus tão frágeis pés.
Sentiu a terra se abrir, e o céu
do alto a grande praia engolir.
O tempo não calculou os segundos
até a fuga tão indesejada.

“Alguém viu minha filha Perséfone?”,
a mãe desesperada procurava.
“Não, madame”,  transeuntes falavam.
Ninguém havia sido testemunha
 do rapto muito ligeiro do amor.
 “Não houve gritos de moça nenhuma”,
“Não há por que ter receio ou pavor”.
Dor aguda lhe tomou o coração
 e aumentou quando alguém lhe contou:
“Perséfone está em grande risco:
 com o chefe do morro do Alemão”.
Deméter pôs um véu sobre os ombros
e se atirou como um pássaro,
sobre o sólido e o líquido,
procurando-a, sozinha, no morro,
na favela escura e temida.
Ninguém a via ou reconhecia.
Ela vagou, durante nove dias,
Dia e noite, de casa em casa,
Atrás da bela e única filha.
Cansada da procura incessante,
Deméter se jogou, martirizada,
 oca, aflita, no meio do barro,
Queria deixar a alma pesada.
“Quem és tu e vem de onde, oh, velha?” ,
perguntou uma humilde senhora,
trabalhadora e mãe dedicada.
“Sou uma cuidadora, à procura
de um lugar digno para trabalhar”.
“Em minha casa você pode ficar,
 e terás pão que a alimentará.
Trabalho para madames do Leblon,
Vivo cuidando das crianças de lá,
mas ninguém cuida das do lado de cá.”
Deméter não recusou a proposta;
No morro ficaria, sem lamentar,
Até a amada filha encontrar.
Durante os anos que se passaram,
a deusa colecionava amigos,
entre balas de revólver e gritos,
Deméter não pensava em desistir:
Na sombria noite definitiva,
os moradores eram um batalhão,
Deméter tirou o véu e procurou
Hades, chefe do morro do Alemão.
“Eu vim buscar minha amada filha,
Um grande batalhão luta comigo;
A polícia te levará à prisão”.
Perséfone surgiu entre as sombras,
Surpresa, gritava ao ver sua mãe.
“Quer mesmo me deixar?”, perguntou Hades.
“Se comigo ficares para sempre,
terás no morro as maiores honras”.
Os olhos vermelhos de Perséfone
 delataram o  veneno dos loucos:
o pó perigoso da cor das nuvens.
Deméter abraçou a sua filha
e a molhou, vertendo sobre ela
as suas lágrimas tão destemidas. 
O banho fez Perséfone suspirar,
“Oh, tenha compaixão de sua filha!
Me cure, mãe, não deixe de me amar!”
Rapidamente, elas correram juntas,
e atravessaram juntas o morro.
Deméter sentia que sua filha,
moça ingênua de mente sadia
Não mais existia nem voltaria.
Perdera a antiga Perséfone.
Deméter sabia: para o morro

sua filha ainda voltaria.

sábado, 6 de dezembro de 2014



Quando começamos a trilhar juntas o caminho para Elêusis, este lugar misterioso onde Deméter pranteou a perda de sua filha Perséfone imaginamos quais seriam os rituais da mãe desesperada, e hoje lembramos das belas palavras do J. Campbell sobre o significado e importância dos rituais, sabedoras que um trabalho como este que empreendemos é um ritual imprescindível nas nossas existências. Aqui um texto emocionante dos rituais femininos de cura e "affidamento" entre as mulheres, por Andrew Solomon que vale a pena!




Sobre esquecer, trabalhar e amar: os rituais femininos de cura e affidamento!

(...) Cinco dias antes de deixar aquele país, encontrei-me com Phaly Nuon, que já fora candidata ao Prêmio Nobel da Paz e estabelecera um orfanato e um centro para mulheres deprimidas em Phnom Penh. Ela obtivera um enorme sucesso em ressucitar mulheres cujas aflições mentais eram tamanhas que outros médicos as haviam abandonado à morte. De fato, o seu sucesso fora tão grande que a equipe de seu orfanato é quase inteiramente formada por mulheres que ela já ajudou, e que criaram uma comunidade de generosidade em torno de Phaly Nuon. Se você salva as mulheres, dizem, elas por sua vez salvarão as crianças, e assim, traçando uma cadeia de influências, pode-se salvar o país.
(...) No início dos anos 70, Phaly Nuon trabalhava para o Departamento Cambojano do Tesouro e Câmara do Comércio como secretária, datilógrafa e estenografa. Em 1975, quando Phnom caiu em poder de Pol Pot e do Khmer Vermelho, ela foi tirada de sua casa com o marido e os filhos. Seu marido foi enviado para um lugar desconhecido, e
Phaly Nuon não tinha idéia se fora executado ou continuava vivo. Ela foi colocada para trabalhar no campo com sua filha de 12 anos, o filho, de três e o bebê recém-nascido. As condições eram terríveis e a comida escassa, mas ela trabalhava ao lado de seus companheiros, “jamais dizendo a eles coisa alguma e nunca sorrindo, nenhum de nós sorria porque sabíamos que a qualquer momento poderíamos ser mandados para a morte”. Após alguns meses, foi despachada para outra localidade junto com sua família. Durante a transferência, um grupo de soldados amarrou-a a uma árvore e a obrigou a assistir enquanto sua filha era violentada pelo bando e depois assassinada. Alguns dias depois, Phaly Nuon foi levada com alguns outros trabalhadores para um campo fora da cidade. Amarraram suas mãos atrás das costas e ataram suas pernas unidas. Depois forçaram-na a se ajoelhar a amarraram-na a uma vara de bambu, fazendo com que se inclinasse para a frente num campo lamacento de modo que suas pernas tivessem que ficar tensas ou ela perderia o equilíbrio. A ideia era que, quando finalmente caísse de exaustão, ela afundaria na lama e, incapaz de mover-se, se afogaria. Seu filho de três anos gritava e chorava a seu lado. A criança foi amarrada a ela para se afogar na lama quando a mãe caísse: Phaly Nuon mataria seu próprio filho.
Ela então contou uma mentira. Disse que, antes da guerra, trabalhara para um dos membros da cúpula do Khmer Vermelho, que fora sua amante e que ele ficaria zangado se ela fosse morta. Poucas pessoas escaparam dos campos de morte, mas um capitão que talvez tenha acreditado na história de Phaly Nuon posteriormente disse que não podia suportar o som de seus filhos gritando e que as balas que os matariam rapidamente eram caras demais para serem desperdiçadas. Então, ele desarmou Phaly Nuon e lhe disse para correr. Com o bebê num dos braços e o filho de três anos no outro, ela disparou adentrando profundamente a selva do nordeste cambojano. Ficou na selva por três anos, quatro meses e 18 dias. Jamais dormia duas vezes no mesmo lugar. Enquanto perambulava, colhia folhas e desenterrava raízes para alimentar a si e sua família, mas a comida era difícil de encontrar e outros ceifadores, mais fortes que ela, haviam deixado a terra nua. Gravemente desnutrida, começou a definhar. O leite de seus seios logo secou, e o bebê que ela não pode alimentar morreu em seus braços. Ela e o filho remanescente se agarraram à vida com todas as suas forças e atravessaram o período de guerra.
A esta altura da narrativa de Phaly Nuon, nós dois já tínhamos trocado nossos lugares pelo chão, e ela chorava balançando-se para frente e para trás, enquanto eu me sentava com os joelhos sob o queixo e uma das mãos no ombro dela, um abraço que seu estado de transe permitia. Ela continuou quase sussurrando. Depois de a guerra acabar, ela encontrou seu marido que, gravemente espancado na cabeça e no pescoço, sofreu uma perda significativa de sua capacidade mental. Ela, o marido e o filho foram colocados num campo de fronteira próximo à Tailândia, onde milhares de pessoas viviam em abrigos temporários feitos de lona. Sofreram abusos físicos e sexuais por alguns dos funcionários do campo, e foram ajudados por outros. Phaly Nuon era uma das únicas pessoas instruídas ali e, conhecendo línguas, podia falar com os funcionários encarregados da assistência. Tornou-se uma parte importante da vida e do campo, sendo dada a ela e sua família uma cabana de madeira que era considerada luxuosa, em comparação com o resto. “Ajudei em certas tarefas de assistência naquela época”, lembra. “O tempo todo em que andei por ali, vi mulheres em péssimo estado, muitas delas paralisadas, não se moviam, não falavam, não se alimentavam e não davam a mínima para os próprios filhos. Vi que embora tivessem sobrevivido à guerra, iam agora morrer de depressão, de um estresse pós-traumático totalmente incapacitante.” Phaly Nuon fez um pedido especial aos funcionários encarregados da assistência e criou em sua cabana uma espécie de centro de psicoterapia.
Ela usava a medicina tradicional khmer (feita com porções variáveis de mais de 100 ervas e folhas) como primeiro passo. Se aquilo não funcionava suficientemente bem, ela usava medicina ocidental quando disponível, como às vezes ocorria. Eu escondia estoque de quaisquer antidepressivos que os funcionários da assistência pudessem trazer”, disse, e “tentava ter o suficiente para os casos piores.” Ela levava as pacientes para meditar, mantendo em sua casa um altar budista enfeitado com flores. Conquistava a confiança das mulheres para que se abrissem. Primeiro, levava três horas para que cada mulher lhe contasse sua história. Depois, fazia visitas de acompanhamento regulares para obter mais detalhes, até que finalmente obtivesse a total confiança das mulheres deprimidas. “Eu precisava conhecer a história que essas mulheres tinham para contar”, explicou, “porque queria entender bem especificamente o que cada uma tinha que superar.”
Uma vez que a iniciação fosse concluída, Phaly Nuon prosseguia num sistema formulado por ela. “Eu o aplico em três etapas”, disse. “Primeiro, ensino-as a esquecer. Temos exercícios que fazemos a cada dia, para que a cada dia elas possam esquecer um pouco mais as coisas que jamais esquecerão inteiramente. Durante esse tempo, tento distraí-las com música, bordado, tecelagem ou com concertos, com uma hora ocasional de televisão, com qualquer coisa que pareça funcionar, com qualquer coisa que elas me digam que gostam. A depressão está sob a pele, toda a superfície do corpo tem a depressão logo abaixo de si,e não podemos tirá-la fora; mas podemos sim tentar esquecer a depressão mesmo que esteja bem ali.
“Quando suas mentes estão limpas do que esqueceram, quando aprendem bem o esquecimento, eu as ensino a trabalhar. Seja qual for o tipo de trabalho que querem fazer, eu descubro um modo de ensiná-lo a elas. Algumas treinam apenas limpar casas ou cuidar de crianças. Outras aprendem habilidades que possam usar com os órfãos, e algumas voltam-se para uma verdadeira profissão. Elas precisam aprender a fazer tais coisas e se orgulhar delas.
“E então, quando finalmente já dominaram o trabalho, eu as ensino a amar. Construí uma espécie de anexo e fiz ali um banho a vapor. Agora tenho um similar, só que mais bem construído, em Phnom Penh. Então levo-as para lá para que todas fiquem limpas, e as ensino a fazer as mãos e os pés umas das outras, e como cuidar das unhas, porque elas se sentem bonitas com isso, e querem muito se sentir bonitas. Isso também as coloca em contato com os corpos de outras pessoas e faz com que se distraiam de seus corpos para cuidar de outros. Isso as resgata do isolamento físico, que é uma aflição habitual entre elas, e conduz à quebra do isolamento emocional. Enquanto estão juntas lavando-se e pintando unhas, começam a conversar, pouco a pouco aprendem a confiar umas nas outras e, no final de tudo, aprenderam a fazer amigas, de modo que jamais terão que ser tão solitárias e tão sós novamente. Suas histórias – que não contaram para ninguém a não ser para mim -, elas começam a contar umas para as outras.”
Phaly Nuon mostrou-me depois os instrumentos de sua profissão de psicóloga: os pequenos frascos de esmalte colorido, a sala de vapor, as varetas para empurrar as cutículas, as lixas de unha, as toalhas. A limpeza e o cuidado com elas e com os outros é uma das formas primordiais de socialização entre os primatas, e essa volta aos cuidados básicos como uma força socializante entre os humanos me pareceu curiosamente orgânica. Eu disse a ela que acha difícil ensinar a nós mesmos e aos outros a esquecer, a trabalhar e a amar e ser amado, mas ela disse que não era tão complicado se você próprio puder fazer essas três coisas. Contou-me como as mulheres que ela tem tratado formaram uma comunidade e como se dão bem com os órfãos de quem tomam conta.
“Há um último passo”, disse-me ela depois de uma longa pausa. “No final, eu lhes ensino o mais importante: que essas três habilidades – esquecer, trabalhar e amar – não são isoladas e sim parte de um enorme todo. É a prática dessas três coisas juntas, cada qual como parte das outras, que faz a diferença. É o mais difícil de transmitir”, ela ri, “mas todas passam a entender isso e, quando o fazem, estão prontas para entrar de novo no mundo.” (p.34-36)


SOLOMON, Andrew. O Demônio do Meio-Dia. Uma anatomia da depressão. Tradução de Myriam Campello. Rio de Janeiro: Objetiva, 2002.

E muitas das narrativas de autoria feminina que lemos tratam dos rituais de separação entre as mães e as filhas, J. Campbell, mais uma vez é magistral:

"Por isto está este ritual que permite a mulher deixar o seu filho homem partir. Ao longo dos anos o capelão da família, o guru, vem e lhe pede algo valioso que ela deve entregar. Começa com alguma jóia (que são praticamente as suas únicas posses) e depois ela tem que abandonar uma comida que gosta muito. Tem que apreender a desprender-se de coisas que valoriza. Depois vem a época em que o seu filho já não é mais um menino e então a mulher já aprendeu que as coisas mais apreciadas na sua vida podem partir."

J. Campbell.
Hoje no Curso de Literatura de Autoria Feminina em Brasília lemos o Hino Homérico à Deméter, uma beleza só. Descrições de "mulheres de fundas cinturas" e a graça de moças de "finos tornozelos" nos remeteram às características femininas de outros tempos. A força do manto de Deméter e do manto da Hécate nos lembraram de outros arquétipos das mulheres sábias e velhas, quase sempre feias e assustadoras. Lembramos da história contada pela mulher de Bath quando o jovem encontra com a velha e tem de decifrar um enigma, uma pergunta formulada muito antes de Freud por Chaucer: mas afinal, o que querem as mulheres? Grandes reflexões e o tempo que passa muito rápido nestas manhãs de sábado cheias de descobertas e magia.



Quando começamos a trilhar juntas o caminho para Elêusis, este lugar misterioso onde Deméter pranteou a perda de sua filha Perséfone imaginamos quais seriam os rituais da mãe desesperada, e hoje lembramos das belas palavras do J. Campbell sobre o significado e importância dos rituais, sabedoras que um trabalho como este que empreendemos é um ritual imprescindível nas nossas existências.

"As pessoas me perguntam: Quais são os rituais que podemos adotar? Bom, antes disto é importante perguntar, para que se quer um ritual? Deveriam ter um ritual para sua própria vida. Todo ritual concentra as mentes naquilo que se está fazendo. Por exemplo, o ritual do casamento é uma meditação sobre o passo que se está dando, o aprendizado de ser parte de um par em vez de ser um indivíduo só. O ritual nos permite fazer o trânsito. O ritual nos introduz ao sentido do que está acontecendo. Uma ação de graças antes das refeições faz com que saibamos que vamos comer algo que já esteve vivo. Todo o ritual é desta ordem; põe a mente em contato com o que realmente estamos fazendo. O principal ritual na maioria dos ritos de iniciação da puberdade é um ritual onde mudam o seu nome. Morre-se para o nome anterior e renasce-se com outra identidade. O menino tem de “representar” a sua transformação num homem. A menina tem que “compreender” que é uma mulher. A vida o exige. O homem jamais tem uma experiência semelhante. É por isto que muitos rituais de iniciação masculinos são tão violentos, tanto que o homem sabe com segurança que já não é uma criança. E é por isto que um jovem tem de ser separado da sua mãe. Na nossa cultura há mães que compreendem isto e ajudam na separação. Nas culturas primitivas, ele são separados definitivamente.”

J. Campbell.