terça-feira, 9 de dezembro de 2014


Da produção livre de Rosângela Vieira Rocha, do Grupo de Literatura de Autoria Feminina de Brasília que nos brinda com estes “Caramelos de Natal”, caramelos nada doces e, como sempre, uma narrativa de tirar o fôlego.




“Caramelos de Natal”, por Rosângela Vieira Rocha.

 Só se falava no baile. As costureiras andavam curvadas, de tanto serviço. “Os Intrépidos”, o conjunto musical mais prestigiado da região, tinha sido contratado para tocar. As moças da cidade esperavam a vinda de muitos rapazes de fora.
Nazaré resolvera mandar tingir de preto os seus sapatos brancos, já encardidos e meio gastos. Sapatos pretos ficariam melhores com o vestido novo, de tafetá azul-celeste. Queria estar linda para a festa, aliás, como as primas e as outras irmãs. O sapateiro era longe e fechava cedo aos sábados. Como já havia feito cachinhos no cabelo, não podia mais sair de casa, antes que secassem.
O jeito era pedir à irmã caçula que buscasse a encomenda, não sem antes lhe dizer que deixasse os seus próprios sapatos atrás da porta do quarto, para o caso de Papai Noel resolver passar por lá mais cedo.
Mesmo estranhando a sugestão da irmã mais velha, Gilda pôs suas sandálias no lugar indicado e só depois saiu para fazer o mandado. Não estava habituada a esperar a visita de Noel de dia, muito menos na véspera do Natal, mas acreditava em tudo que as mais velhas diziam. Adorava Nazaré e cumpria suas ordens à risca.
No caminho, parou na casa da tia para pegar a pinça de sobrancelha emprestada, a pedido da irmã do meio. O sol brilhava timidamente, depois da forte tempestade da noite anterior. Foi andando devagar, saltando as poças d’água e reparando na areia azulada deixada pela enxurrada. Gostava muito de areia brilhosa, matinhos, folhinhas, pequenas flores, insetos que apareciam depois das chuvas, como joaninhas e besouros azuis, sempre acreditando que algum dia encontraria um tesouro oculto no meio dessas coisas, um anel, uma moeda de ouro ou de prata, uma carteira com dinheiro, algo surpreendente e mágico que mudaria sua vida para sempre.
Cumprida a incumbência, voltou para casa, com o pacote embrulhado em folha de jornal. No caminho, andando na calçada, podia sentir o delicioso cheiro de carne assada vindo de dentro das casas. Ia treinando o nariz, tentando adivinhar se assavam leitoa ou peru. E havia o delicioso perfume de canela dos bolos e broas de fubá.
Entregou à irmã o embrulho e foi para o quintal ver se encontrava alguma novidade nos canteiros de couve. Logo depois escutou a voz de Nazaré, chamando-a para ver o que havia na sandália que deixara atrás da porta.
Veio correndo e, quase sem fôlego, encontrou a linda caixa de doces de leite cortados em quadradinhos, embrulhados em papel celofane. A irmã do meio, sempre escandalosa, gesticulava e pulava, mostrando a sua alegria com o presente antecipado que o apressado Papai Noel deixara para a caçula. Abraçou a caixa, encantada. Nem sequer pensou em abri-la, pois queria usufruir mais da surpresa e, deixando-a intata, prolongava o mistério.
Subiu num galho da goiabeira, ainda molhado de chuva, com a caixa de doces debaixo do braço. Apalpava-a, cheirava-a. Como poderia Papai Noel ter entrado na casa sem que ninguém o visse? Não era maravilhoso ele ter aproveitado o tempo que ela esteve fora para deixar o presente? Só mesmo um mago como ele o faria.
Depois colheu goiabas verdes, que adorava e comia escondido da mãe, enchendo os bolsos do vestido. Procurou tomatinhos do mato, na rama que cobria a cerca de bambu, para fazer molho. Cada planta do quintal era apalpada, mimada, acariciada. Conversava com todas, inventava histórias compridas para cada uma delas.
Havia sombras, quando entrou de novo na casa. Era quase noite e ninguém tinha acendido a luz da varanda que dava para o quintal. Uma das irmãs lavava vasilhas, de cabeça baixa. Gilda procurou as outras em todos os cômodos, mas não viu ninguém. Onde estariam?
Depois escutou barulho, vindo do quarto do casal. A voz zangada do pai só era abafada pelo arrastar de cadeiras. Parecia furioso, mas ela não sabia por quê. Às vezes chegava a ouvir os gritos estridentes da mãe. Escondeu-se no seu quarto, fechando a porta de mansinho, sem nenhum ruído. Esticou-se na sua cama de roupa mesmo e ficou bem quieta, abraçada à caixa de doces. Cobriu a cabeça com o travesseiro, tapando bem os ouvidos.
      Logo a discussão tomou toda a casa. O pai investia contra os sofás, quebrava os quadros da parede, dava pontapés no aparelho de TV e jogava longe as louças do armário. A mãe acompanhava os movimentos dele, seguindo-o sempre, falando alto. Súbito, ele percebeu que tinha cortado a mão num copo e começou a balançá-la nas paredes, espalhando pingos de sangue por todos os lados.
Começou a gritar o seu nome, Gilda, cadê você, quero conversar com você, onde foi que se meteu? Ele esmurrava a porta do quarto, abra, abra, você não está dormindo, é muito cedo, saia daí já! A menina cobria a cabeça com força, apertando o travesseiro, mas ele não desistia. Até que o ferrolho cedeu e ele puxou-a da cama, à força. Vendo que ela não soltava a caixa de doces, sua raiva ia aumentando. Obrigou-a a ir para a sala e, diante da mulher, lhe disse que tinha uma coisa muito séria para contar, estava passando da hora de ela saber que Papai Noel não existe, nunca existira, tudo não passava de uma bobagem, ele mesmo tinha comprado os doces numa padaria da cidade vizinha, ela já tinha idade para deixar de ser boba, pois não era mais um bebê.
 Depois tudo ficou silencioso e ela desceu o quintal até a beira do rio, procurando novos brotos na rama de abóbora. Deixou-se ficar ali um tempo enorme, ouvindo o ruído brando da água passando, passando, para onde iria? Lentamente, alisou pela última vez a caixa, ainda sem abrir, e ficou assistindo à sua descida, rio abaixo.

Um comentário:

  1. Esse conto da Rosângela é lindo demais. Uma trama bem urdida leva ao nó cego da decepção, que não dá mais para desatar. Diante de sua impotência, a menina deixa que as águas levem o doce, para que ela própria possa renascer num novo tempo.

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