segunda-feira, 18 de abril de 2016

Lemos juntas com as mulheres ventenras de POA o conto maravilhoso de Karen Blixen “La pagina em blanco” e sua interpretação definitiva no ensaio de Susan Gubar:  de "La página en blanco" y los problemas de la creatividad feminina”.

A escritora dinamarquesa Karen Blixen.

A ensaísta Susan Gubar.

Segue a produção ficcional do grupo sobre a página em branco.

A página em branco, por Lívia Petry:

                 Escrevo como escrevem os poetas: com a verve insana, com a asa ferida, entre verdades e mentiras. Escrevo para ser livre da baba de Caim, escorrendo em minhas veias. Escrevo porque sou feia, porque enrolo a língua para dizer “eu te amo”,  porque derrubo etiquetas e tapetes, desfaço os livros de bom comportamento, dou risada das colunas sociais, e vivo assim, à esquerda, gauche, tortinha como queria Drummond. Desengonçada e solitária, faço do meu corpo a escultura de prazeres: mesa, cama, cheiro, perfume Kenzo.
                    Como uma revolucionária às avessas, escrevo para viver. Para ser criador e criatura numa só nota de amargura. E faço do cursor, da pena, da caneta, meus lábios e meus olhos. Porque as palavras vêem, porque as palavras falam e gritam tudo o que eu sempre quis dizer e não tive coragem para isso. A folha em branco é o lençol conspurcado dos amantes, é o espaço dos fluidos que se tocam, que se espalham. A folha em branco é o lenço de Desdêmona, é a minha perdição extrema, é o lugar longe do espelho de Alice, é o lugar onde me encontro nascida outra vez.
                        Eu, que nasci de duas mulheres: minha mãe, primeira luz; minha avó, luz primeira. E assim, desde pequena, imitei a anciã da família. A anciã rebelde, que não quis apenas ser esposa e mãe, que quis ser escritora e professora de literatura. A anciã que escrevia novelas para a rádio Farroupilha. Ela sim, entendia minha loucura. Ela sim, sabia o que eu queria dizer quando escrevia: “paredes são rios e não sabem”. A avó, foi a primeira a pegar em armas: na caneta e na Ollivetti, ela criou novos mundos. Cansada da guerra, recebi dela a artilharia inteira: palavras, palavras à mancheia...
                    Escrevo porque como minha avó dizia, “o sonho não acabou”. O sonho somos eu e você, cada um sonhando que vive, que mora num apartamento exíguo, que gasta o salário pagando impostos, que ama, que sofre, que chama o sonho de Realidade. O sonho é isso: o véu das ilusões, a fama momentânea, o dia dos autógrafos. E é mais: um pouco de utopia porque escrever é dar esperança, é saber que a criança sem teto e sem pão, ainda assim, sorri com uma canção.
                  O sonho é essa coisa doida dentro da gente, querendo explodir de contente, querendo semear outros sonhos no resto das gentes. Escrevo para acordar, para saber que ainda existe na prática, o verbo “Amar”. Escrevo em ritmo e rima, feito fosse uma menina na ciranda, fosse eu dançarina. E assim, eu canto: porque o amor é tanto, e a vida pequenina. A página em branco? Minha roupa de bailarina, meu fru-fru, meu palco de cantora, minha ode amadora. Sou ela, a página a ser escrita. E escrevendo vou nascendo, vou juntando os cacos de mim mesma, vou sendo outra e eu ao mesmo tempo. Eu sou a página e a letra. Eu sou a  Musa e a Poeta, o vaso que Deus preencheu com as canções do mundo. Escrevendo, vou sonhando os sonhos de Deus assim, de pouquinho em pouquinho. E sonhando, vou criando o que Deus em sua infinita entrega, quer do sonhador. Sim, Abuela, “o sonho está só começando”... numa página em branco...

Meus queridos pais, por Marta Peixoto.

É a primeira vez que lhes escrevo depois que vocês partiram porque senti necessidade de fazê-lo, de demonstrar, por escrito, verbalmente, todo o meu carinho o que antes nunca consegui fazer.
Vou contar-lhes o que me aconteceu e é algo que vejo, muito facilmente, sendo feito por muita gente; uma de minhas noras e filhas dizem, simplesmente, esta frase: eu te amo! Mas eu nunca consegui dizê-lo!
Agora, num curso de literatura de autoria feminina que entrei, por sugestão da Almudena, minha amiga espanhola, me deparei com um tema para fazer em casa : escrever uma carta.
Aceitei prontamente e como sempre gostei de escrever e receber cartas me sentei calmamente em casa e comecei a escrever, mas aí pensei: escrever para quem? Escrever o quê? Visto que todas as colegas ouviriam o que eu escrevesse  e como seria a crítica da professora e das colegas? .
E nada saiu. Umas palavras e nada mais. A timidez venceu naquele momento.
Fui à aula seguinte e confessei à professora que não tinha conseguido escrever embora tivesse escrito inúmeras cartas durante uma época de minha vida e tenha, em casa, cartas de pessoas conhecidas do mundo intelectual dirigidas a meu pai.
A professora sorriu e durante a aula foi algo tão emocionante ouvir as colegas lerem suas cartas com tanto carinho, tanto sentimento e nenhuma timidez. Eram sorrisos, palmas e olhares; todas eram lindas dirigidas para as mais diversas pessoas, a maioria para as de sua família talvez.
Então, enchi-me de coragem e estou eu a escrever-lhes o que gostaria de ter-lhes dito, em vida, não só demonstrado o que era evidente, sem dúvida, que sou muito grata a vocês por tudo o que me ensinaram,os valores culturais que me transmitiram ,os cursos que me pagaram e tudo o que me proporcionaram e a meus filhos depois.
Mas o que gostaria de deixar-lhes bem claro é que hoje tenho, na memória, algo doce e terno de momentos vividos com vocês naquelas cidades onde moramos e com o coração apertado de saudades lhes digo: “eu amo vocês”!Obrigada!
Carta a uma jovem sonhadora, por Irene Maria Guerra Albornoz.

Porto Alegre, 21 de março de 2016.
Querida jovem,
Lembro que, desde tua primeira infância, cedo mesmo, trazias em ti uma necessidade de aprovação. Querias muito ser aceita.
Aceita pelo irmão do meio. No pátio da casa, ele, o primo e os dois inseparáveis amigos, jogavam futebol ou disputavam campeonatos de bolita. Na garagem, as partidas de jogo de botão. Na piscina, os saltos pretendidos ornamentais. Tudo era gritaria, barulho, movimento e diversão. Desejavas participar da brincadeira proibida. Da janela, apenas observavas.
Aceita pela mãe virginiana, do lar, prendada, organizada, mulher de um homem só. Estudavas com a mãe, que te explicava com as próprias palavras, as lições ditadas pela professora do grupo escolar. Com ela aprendeste as artes e ofícios domésticos.
Aceita pela irmã mais velha, bonita, alegre, simpática, sociável, culta, bailarina, pianista, poliglota, extrovertida, enfim, brilhante. Foi ela quem descortinou para ti o mundo das letras e da imaginação.
Aceita pelo pai, empresário bem-sucedido, trabalhador, provedor, esportista, inteligente e charmoso, teu ídolo. Foi o pai quem te ensinou a nadar, a gostar dos números e de contar histórias e estórias.
Aceita pelo irmão que saiu de casa aos 15 anos para estudar na capital, um respeitável e desconhecido senhor.
No turbilhão da adolescência foste invadida por novos sentimentos e inusitadas sensações, mas, sobretudo, pelo medo. Medo de não ser amada. Medo de não saber o que fazer para sobreviver. Medo de não ter como sobreviver. Medo de errar. Medo de arriscar. Medo de transgredir. E, apesar dos pesares, ser aceita.
Querias ser “mãe de filhos”, bailarina, cantora, pianista, “miss qualquer coisa”, médica, engenheira, campeã de natação e tênis, costurar, cozinhar, tricotar, escrever, viajar, dominar o inglês e o francês, enfim, querias tudo. Querias abraçar o mundo e deixar nele marcada tua presença. Nesse tempo, o mundo se dividia entre os bons e os maus.
O teste vocacional aplicado no ginásio em nada te ajudou, pois tinhas condições de ser tudo o que desejavas e ainda muito mais. Tantas decisões a tomar, tantas perguntas sem respostas, tantas dúvidas.
Teu ídolo caiu quando descobriste sua infidelidade à tua mãe. Tua família não era perfeita. As pessoas não eram perfeitas. O mundo não era perfeito. Ficaste infeliz e deprimida. Não percebeste, então, quão liberadora fora essa descoberta: tu podias errar! Estava permitido!
Não obstante, trilhaste um caminho, ao mesmo tempo, conservador e revolucionário. Cresceste, namoraste, te apaixonaste, te decepcionaste, choraste, te despedaçaste, voltaste a namorar, te casaste, fizeste filhos, trabalhaste, enlouqueceste, desejaste matar, te encorajaste, te separaste, retomaste teus estudos, trabalhaste, amaste, te graduaste, abriste caminhos, acertaste, erraste, trabalhaste, choraste, desejaste morrer, riste, gargalhaste, cantaste, viajaste, estudaste, te graduaste outra vez, te orgulhaste, trabalhaste ainda e, por fim, sobreviveste e voltaste à solitude.
Hoje, o bem e o mal estão onde estavam desde sempre: dentro de ti. Confirmaste a veracidade dos versos do catalão Joan Manuel Serrat, que tomando emprestadas as palavras do poeta sevilhano Antonio Machado, cantou “Caminante, no hay camino, se hace camino al andar”. Não tens respostas para tuas perguntas. Tens as respostas que deste a cada uma nas circunstâncias daquele momento. Tuas dúvidas nunca se tornarão certezas. Tens as lembranças afetivas do que viveste naquela situação. Não mais dependes da aceitação alheia. Descobriste que estás em paz contigo mesma. Não precisas da opinião, nem da aprovação dos outros. Não te arrependes de teus erros, só daquilo que deixaste de fazer. Conquistaste, afinal, tua tão ansiada liberdade.
Lembro, sim, embora ao fitar o espelho, corpo cansado e gasto, não mais reconheça tua imagem, jovem sonhadora que ainda habita em mim.

Com ternura, Irene Maria.

quinta-feira, 7 de abril de 2016

Carta à minha avó, por Lívia Petry.

Abuela, sempre gostei de te chamar assim, em espanhol mesmo, fosse isso em memória da Vó Maria que veio da Espanha junto com a mãe dela num navio, fosse porque tu lembras as avós de Buenos Aires, tu que gosta tanto daquela cidade. Tu e o Vô podiam ser argentinos: o Vô, com o lenço ao pescoço, escutando ora uma ópera, ora Gardel, e tu, sempre tão chic, elegante, como se fosse tomar o chá das cinco no Plaza.
         Tu sempre serás minha Abuela do coração. Lembro-me de nós duas, sentadas em cadeiras de palha e vime, na sacada da casa da praia, tu me lendo tuas histórias policiais, e eu criança, opinando sobre elas. Lembro do nosso encontro, eu com dezesseis anos, tu já idosa, e nós duas olhando fixamente um quadro na parede. Subitamente uma de nós começou a contar uma história baseada na pintura, e a outra, continuou de seguida a história, até que ficássemos ambas, novamente em silêncio.
           Tu, a única a entender a minha loucura de escritora, minha necessidade de ficar sozinha, minha paixão pelos livros. Tu fundaste o Núcleo da Hora do Conto na Faculdade de Biblioteconomia da UFRGS. Eu fundei a Trupe Quem Conta um Conto –contadores de histórias – junto com mais cinco colegas. Tu escreveste a Coleção Misterinho para a Editora Sulina. Eu escrevi e publiquei quatro livros, dentre eles, um infanto-juvenil, bem ao teu gosto.
         Nós duas, Vó, temos os mesmos defeitos: odiamos serviço doméstico, somos capazes de bajular a empregada para que ela não nos abandone. Eu e tu adoramos crianças, mas ao longe, que não venham atrapalhar nossas leituras! Somos Vó, igualmente egoístas quando estamos escrevendo ou montando uma aula. Criaturas carentes não nos entendem. Maridos e namorados idem. Todos ficam enciumados, porque somos tão parecidas e tão devotadas aos nossos personagens. A escrita nos apaixona.
          Somos capazes mesmo de conhecer o interior de cada um, e expor em palavras as feridas, e curar nossa raiva, o desejo de vingança, as tristezas eternas, com um simples canetaço. Indicador e polegar segurando a caneta, escorrendo a baba do demônio, escorrendo o juízo de Deus, e nós, Vó, no meio do redemoinho, como Riobaldo, como o velho Guimarães Rosa.
             Se é de Deus esse dom? Deve de ser. Mas deixemos Deus quieto em seu canto. Que eu sei, detestas essa religiosidade toda. Eu e tu Vó, nascemos do mesmo barro, do mesmo pé de Amoreira em flor. Eu e tu Vó, somos guerreiras, e ainda assim caímos doentes apenas para sermos cuidadas. Somos eu e tu duas rebeldes em tempos diferentes, só isso. E nosso paraíso fica a pouca distância dos olhos, nosso paraíso fica num livro. Não um livro qualquer, mas o livro da vida.

             Pororom, Piririm, esta carta chegou ao fim. 
Carta para a amada, por marian pessah.

Porto Alegre, 16 de março
 Clodet, amada, estou escrevendo para te agradecer. Sim, eu sei que já falamos, mas quando eu escrevo, reflito sobre o assunto, tu sabes, escrever é deslizar-se no tempo, esticá-lo e, ao mesmo tempo, escorregar nele. Assim as palavras absorvem as ideias e o meu mau humor se desfaz.
Da última vez que conversamos bem sabes o quanto eu estava agoniada, chateada. Dentro de uma nuvem. E tu, com a tua sensibilidade habitual, afastaste aquela nebulosidade que me impedia ver. Como não te agradecer também por escrito? Como não te amar?
Sim. Não está fácil, tu me dizias. Depois de duas décadas de ativismo feminista voltar à escola! Sabemos que a academia é um berço machista por excelência e, além do mais, hierárquico! Quase uma redundância. Quem está à frente é o professor (porra, neste semestre não tenho UMA professora) e é ele quem fala, quem está sentado deve escutar.
Mas como tu sabes, estou me desafiando no dia a dia. Embora, sexta-feira, seja o pior de todos. O professor, fazendo gracinha, contava que uma vez estava na Nicarágua conversando com um cara num boteco.  Aí, o tal do “lugareño”, falou assinalando uma mulher e disse que o deixava como a um touro. Como se faz para não estourar de raiva e indignação?  Como se faz para caminhar só pela via da literatura deixando a um lado a via da consciência? Aquela que nos salva, nos protege e que tanto me custou cultivar no meu jardim cerebral.
É claro que me revoltei! E como! Mais uma vez levantei a mão (integrando-me àquele circo Universal – tão uni  e nada plural) e falei do meu descontentamento. O ser letrado respondeu com aquela ironia típica dizendo que num boteco não iria encontrar poeta. Só lhe faltava aquele sorrisinho de lado e falar para os poucos guris da turma: - bate aqui!
Eu, indignada à enésima potencia, subi o tom e retruquei. Obvio que não vai encontrar poeta no bar – ou quem sabe? Já encontrei filósofo bêbado num ônibus em Natal, depois da meia-noite. Mas ele não poderia reproduzir assim, com essa leveza, aquela frase tão agressiva. Acrescentei que os feminicídios – será que o ser letrado conhecia essa palavra? Pior, o conceito? – na América Central são gravíssimos. Ainda tenho as palavras da Melisa dizendo, gritando, chorando, cuspindo que todas podemos ser assassinadas e essa foi o mote com o qual fizemos as fotos em Honduras: Poderia ser eu. De fato, tem apenas duas semanas que assassinaram a Berta e a Jéssica mandando mails pedindo, gritando, denunciando e clamando por ajuda internacional.
No dia seguinte continuei pensando, na próxima vez vou dizer ao professor para trocar a palavra mulher por negro, por pobre, por judeu, por indígena. Vamos ver se trocando as letras de lugar, o ser entende de injustiças.
Quanto bem me fez conversar contigo e desabafar. Obrigada mais uma vez por estar junto, por me mostrar que faço bem em me revoltar e em falar. Que não estou sozinha. Sei. Nunca sairão as palavras apropriadas na hora certa; mas, pior, é não falar e deixar aquele vazio. Aquela fala grotesca de um homem dando risada das mulheres, na frente de uma audiência de 40 pessoas, dentre as quais, pelo menos 30 somos o objeto da piada. Interromper também faz parte da educação.
No pasarán! Né, Clo, como a gente grita nas ruas, mas para que não passem a gente não pode nunca baixar os braços. O sistema, esse patriarcado tão feroz, tão injusto, que causa tanta dor, enfia-se por todos os lados e o tempo todo. Por isso o melhor antídoto é a nossa união.
Te abraço muito e em breve já estaremos juntas.
Te amo,
marian.
Carta para a minha mãe, por Lisiane Andriolli Danieli.

Porto Alegre, 14 de março de 2016
Mãe,
Te escrevo porque estou angustiada. Desde nova, sempre que chegava perto de ti tinha certeza da tua leitura instantânea de meus sentimentos. Hoje, na distância, não podes me descobrir. Os últimos dias têm sido difíceis. O coração aperta e mesmo o vento quase frio batendo em meu rosto não é capaz de me livrar desse nó na garganta.
Quando me sentava contigo enquanto fazias tricô, queria conseguir decifrar a sensação que tinhas. Os fios passando de um lado ao outro, o novelo diminuindo e algo novo se formando. Teu olhar perdido para a porta anunciava tua ansiedade. Te imagino nesse processo em noites quase solitárias à minha espera. Não voltarei mais todas às vezes. Eu cresci.
Sempre que recordo da minha infância, me arrependo dos bilhetes que escrevi para colocar no teu travesseiro. Não eram cartas de amor, eram de profunda hostilidade, e agora entendo o meu temor em tornar-me, assim como tu, mãe. Percebo meu erro em te culpar por todas as funções que te impunhas, por tudo que eu tinha certeza que também deveria fazer. Com meu desenvolvimento, tiveste a chance de me mostrar que tu eras mais que mãe, mais que dona de casa, mais que esposa. És uma mulher forte, batalhadora, teimosa, controladora. És o melhor que poderias ter sido.
O que sinto agora é também alegria, porque sei que tu sempre vais estar comigo. Tu vais me apoiar. E eu estou contigo. Tudo que tu me ensinaste está em mim, e tu também aprendeste comigo. Crescemos e mudamos juntas. Continuaremos assim.
Com todo amor do mundo.
Lisiane.



Nós, em algum lugar, no futuro, por Priscila Pasko.


Vó,
Imagino que neste momento alguém esteja lendo esta carta para a senhora. Talvez seja tarde demais para explicar o que não tem explicação, aliás, agradeço por a senhora nunca ter me perguntado nada. Seu silêncio me salvou, e enquanto eu respirava ofegante ele a mergulhava no vazio do tempo. Por isso me senti na obrigação de relatar cada dia dos dias mais difíceis dos dias da minha vida, da sua e da mãe. É de manhã. Estou sentada em frente ao computador. O cursor imita o ponteiro de um relógio e pisca...pisca, pisca... Enquanto isso tomo coragem para digitar. Não escrevo porque sei que as palavras têm peso e isso me assusta.  E nesta procura claro que não considerei nenhuma palavra apropriada, digna da senhora e, muito menos, digna de mim. Não consigo. Deixo para outro dia.                                                
Sono de merda. Odeio pertencer a uma família tão pequena e à qual não posso delegar tarefas que não suporto fazer. Assim como a sua história comprova, a da mãe e, provavelmente a minha, resta às mulheres lidar com a dor e a alma em carne viva. A todos cabe o remorso, mas a culpa não é órfã e precisa encontrar o seu espaço. Já que a vida assim é regida, decido aceitar as suas regras e permitir que a culpa seja acolhida em mim. E tudo fica pesado, vó: o ar, os meus olhos, os meus passos, a minha consciência. Ligo para duas casas de repouso e agendo uma visita.
A memória é baixa, traiçoeira e oportunista. Lembro-me das histórias que a senhora contava, do seu perfume sobre a penteadeira, do seu egoísmo, da sua vitalidade, do seu gênio intratável, dos seus cuidados comigo, dos doces feitos e até mesmo das suas inimizades. Tudo isso dançando de forma desordenada e macabra em minha cabeça. Sinto dores por todo o corpo.                                          
Seus fios de cabelo, que, anos atrás, eram negros graças à tintura e à vaidade, hoje estão pálidos, ralos. Os comandos básicos desobedecem. Exigem-lhe não apenas que use fraldas, é preciso um toque de degradação; alguém deve trocá-las e lhe enxergar como uma criança vulnerável. Confissão do fracasso do tempo. Quero o seu colo. Quero lhe dar o meu. Ao seu lado, brinco com o interruptor de luz suspenso sobre a sua cama, o mesmo que me distraia na infância. Acendo. Apago. Acendo. Apago. Apago. Apago.    
Busco, sem sucesso, na opinião alheia respaldo para nossa decisão. Mas os conselhos são vagos, vó. Ninguém quer se comprometer sobre o destino das pessoas velhas. Enxergam no desfecho pouco louvável a própria sina. A sua postura independente não condiz mais com a fragilidade do corpo. Agora não basta querer, vó, é preciso pedir e depender. Desfrutar da solidão em uma casa não é mais privilégio, mas perigo iminente.   
Foi naquele momento que decidimos não mais deixar a senhora sozinha, a quilômetros de distância. Aqui no hospital, o enfermeiro com olhos de prego lança um julgamento. Vó, guardei bem aquele olhar e jurei a mim mesma nunca mostrar aqueles olhos a ninguém. Lembrei de sua silhueta isolada na penumbra da sala de casa, rodeada de quadros de fotos antigas e um rádio relógio mal sintonizado. A porta principal da casa, sempre aberta, mostrava a possibilidade de qualquer chegada, mostrava o tempo. Já era o momento de lhe desgarrar das horas.
De forma amadora, a mãe prepara lhe prepara os curativos. Está tudo arranjado e a senhora não sabe de nada. Eu finjo não saber. Sim, vamos arrancá-la das histórias da sua casa, do jardim e das rosas. Será melhor. Sua cama, bibelôs e sofá ficam. Não visitaremos mais o bairro. Minha cabeça vai explodir. Despeço-me da minha infância, da parreira e dos banhos de mangueira no pátio. Recebo da culpa um soco em meu estômago.     
Com a ajuda de um amigo, a mãe busca a senhora para um passeio. E essa mentira vai rasgando minha mãe durante todo o trajeto. Chegando lá, orientam lhe deixar sem se despedir. A senhora espia ao seu redor acreditando ter voltado à casa em que morou décadas atrás. É o passado que a recebe e conforta por alguns instantes. A mãe carrega tijolos dentro dela. E chora cimento.
Dia de visita. Levo frutas e outros mimos à senhora: uma oferenda à minha vergonha, ao fato de ter de deixá-la neste lugar, acolhedor de histórias suspensas. Suas mãos aceitam minha oferta com candura. Os velhos da sua nova casa riem, comem, engolem comprimidos, contam lembranças e inventam visitas. A senhora canta uma antiga marchinha de carnaval.
Com 29 anos de idade, enxergo o meu corpo no seu. A senhora está nua sobre a cama enquanto lhe dão banho. O dia está lindo lá fora. Vó, espera... Estes seios são meus, este ventre... eu conheço. Seus pelos, que aos 88 anos resistem fortes no seu corpo, suas costelas salientes são também as minhas. Estou em pé, ao lado da cabeceira da cama e, aos pés, a mãe. Olha, vó, os olhos da mãe também são meus, assim como o cabelo. Veja, esse queixo é seu, é da mãe ou meu? Quem de vocês eu sou? Somos uma? Afinal, quem está sobre a cama? A senhora sorri para mim. “Deus te abençoe”, e me beija a testa.
Por fim falei, vó, por fim a senhora sabe.
Da sua sempre neta.



Escolhemos, cada uma no grupo, uma janela e um interlocutor e escrevemos os textos a seguir, reiterando esta prática tão feminina da  escritura dos diários, das cartas, da intimidade. As cartas que seguem são as primeiras produções do grupo do Curso de Literatura de Autoria Feminina de Porto Alegre, em 2016.
Avante, meninas! Todas na janela!



Querida aluna, por Camila Doval.

Na última vez que nos vimos tu me fizeste uma pergunta, e eu sinto que fiquei te devendo uma resposta à altura da tua curiosidade.
Realmente, a minha tatuagem no pulso não significa apenas o símbolo do sexo feminino. Eu não marcaria o meu corpo de forma indelével para homenagear a segregação dos banheiros e a falta de opções inclusivas para quem não se enquadra num binarismo de gênero simplório e asfixiante.
Eu tatuei esse desenho como um lembrete para que eu não esqueça um dia sequer que acordo cedo e vou até a escola te dar aula, porque antes de mim mulheres muito especiais lutaram para que eu tivesse acesso ao ensino e ao direito de trabalhar fora e de ocupar cargos importantes como o de professora.
Eu tatuei esse desenho para que eu não me esqueça, em cada uma de nossas aulas de literatura, de te apresentar uma escritora mulher e a imprescindibilidade dela para a nossa cultura, e para que através dela tu compreendas o quanto o teu talento e a tua perspectiva são necessários para que representemos e compreendamos o mundo em que vivemos de maneira mais completa e justa possível.
Eu tatuei esse desenho para que eu não esqueça que se um menino te assedia em sala de aula não é por culpa da roupa que tu decidiste vestir: sob hipótese alguma ele tem qualquer direito sobre ti e sobre teu corpo ou ainda algum privilégio sobre a minha autoridade. Mas eu também tatuei esse desenho para que eu não esqueça que esse menino vive sob violenta pressão da sociedade para que comprove o tempo todo, e em relação a nós mulheres, o quanto ele é homem. E ele é ainda um menino e  pode mudar de ideia se eu mostrar a ele que uma sociedade igualitária é o lugar em que todos nós deveríamos desejar viver.
Eu tatuei esse desenho para que eu me lembre sempre da mulher que eu queria ter sido desde quando eu tinha a tua idade: curiosa, cheia de iniciativa, com esse teu mesmo olhar intenso e essa displicência para fazer perguntas como quem tem todo o direito de saber. Tu tens todo o direito de saber tudo e tudo o que eu souber eu vou te ensinar. Menos o lado sombrio de ser mulher. Esse eu vou torcer para que tu nunca tomes conhecimento. Eu inclusive tatuei esse desenho para lembrar que se alguém já me prejudicou, desmereceu ou violentou pelo fato único e exclusivo de eu ser mulher é porque eu preciso me unir às outras mulheres e fazer parte da corrente de revolução. Eu tatuei esse desenho para te incentivar a não abandonar tua curiosidade, tua iniciativa e teu olhar intenso se ali na esquina um homem te disser uma bobagem e tua vontade ser a de abrir um buraco no chão e desaparecer.
Eu tatuei esse desenho, querida aluna, justamente porque ele é o espelho de Vênus que vai refletir o teu sorriso e projetar um caleidoscópio de todas as cores da tua plena existência num mundo que ainda vai aprender a nos incluir — ou então sucumbirá.
E se sucumbir, não sinta pena: esse mundo teve todas as chances. Construiremos outro.
Um beijo da profe Camila.



Com o grupo do Curso de Autoria de Literatura Feminina em Porto Alegre, 2016, na Livraria Baleia.

No Modulo 1 estudamos os fundamentos teóricos: conhecendo a teoria: a crítica literária feminista e a literatura de autoria feminina; as genealogias femininas e a literatura das mulheres; Carmen Martín Gaite: as "mujeres ventaneras" e "Las chicas raras".







Sejam bem-vindas, Almudena Santamaría, Camila Doval, Lindevania Silva, Lisiane Andreolli Danieli, Livia Petry Jahn, Marian Pessah, Marta Peixoto, Prscila Pasko, Rosana Leotte, Vitória de Almeida Fonseca, Irene Maria Guerra Albornoz e Simone Van der Broek.
De su ventana a la mía:




A escritora espanhola Carmen Martín Gaite em 1982 escreveu uma carta linda para sua mãe, De su ventana a la mía, um exercício de imaginação, onde ela, desde o East River, debruçada sobre a janela,  alcançava a mãe numa janela da memória e compreendia, finalmente, os anseios e desejos de fuga, solidão e imaginação daquela mulher. As janelas que nos fazem sonhar, duvidar, imaginar. 
Escrevi uma carta para a Gaite contando das mulheres ventaneras de Brasília, quando da nossa despedida em dezembro de 2014.
Volto a postá-la recomeçando os trabalhos em Porto Alegre, e para recepcionar as novas mulheres ventaneras!






Brasília, 31 de janeiro de 2014.

Minha querida Carmen Martín Gaite,

Neste ano da graça de 2014 resolvi me dar um presente. Depois de compreender que a muitos anos cumpro diversas tarefas por dia em trabalhos que não amo exatamente para poder ter condições de dedicar algumas horas semanais aos trabalhos que realmente amo – ler, escrever e falar sobre as  mulheres com outras mulheres – entendi, finalmente, que estava fazendo tudo errado e que não podia mais adiar algumas mudanças. O presente que eu me dei foi a criação em Brasília do Grupo de Literatura de Autoria Feminina. Na época, duvidando da iniciativa, ouvi da Ana Liési que eu era uma mulher de pouca fé e termino este ano certa de que sou uma mulher de muita fé. Convoquei as mulheres e elas compareceram. A perspectiva do trabalho era a sua, Gaite, de refletir sobre as mulheres ventaneras, sobre as mulheres que, na janela, espicham o olho e a alma através da janela e se permitem imaginar, sonhar e escrever. E da perspectiva da importância dos espelhos na vida das mulheres que crescem e se transformam através de relações especulares com outras mulheres. Como num conto seu onde a protagonista que se encontra num dilema existencial e não sabe como continuar. Ela vai à janela numa noite enluarada e num prédio em frente há também uma mulher debruçada em devaneios, e sobre elas uma lua cheia.
Lemos inúmeras escritoras mulheres e falamos sobre nós e depois produzimos textos sobre as histórias contadas, ouvidas, lidas. As leituras sobre a necessidade de uma atenção imprescindível da criação das genealogias femininas e de um pacto de affidamento nos levaram aos caminhos de Eleusis onde nos juntamos à Deméter que buscava sua filha Perséfone e começamos este caminho sem volta que nos ensinou a questionar sobre as complexas relações entre as mães e as filhas, estruturantes para todas nós.
Na festa de final de ano, no dia do amigo oculto, tirei da bolsa um espelhinho pequeno, redondo e fiz com que cada uma se olhasse no espelho e visse, ali no reflexo mágico, o resultado dos meses de trabalho e estudo. Todas voaram pela janela infinita, todas cresceram e se transformaram em mulheres maravilhosas. Curas de saúde aconteceram, livros foram escritos e publicados durante o processo, textos foram publicados no blog, mudanças de rumos de vidas, grandes e inadiáveis iniciativas para melhoras e transformações. Éramos mulheres lendo mulheres e escrevendo, mas éramos contadoras de histórias tentando compreender quem somos e o que desejamos.
Vamos agora escrever juntas o livro sobre esta experiência, Gaite. A casa onde trabalhamos, cenário dos nossos encontros mágicos, onde tomamos chá de hibiscos e bolo de maçã compartilhando o verdadeiro pão da alma e as romãs transmutadoras, não existe mais, foi desmontada e permanece agora intacta na nossa memória e nos nossos corações. E vamos continuar, abrindo janelas virtuais já que o trabalho se impõe e continua soberano nas nossas vidas.
Escrevo-lhe para contar, minha querida Gaite, que quando abrimos as janelas nem imaginamos que milagres podem acontecer, e que quando nos olhamos nos espelhos junto com as outras mulheres, já somos outras, inimagináveis e grandiosas.
Eu, de minha parte, agradeço sua presença literária em nossas vidas, transformada numa mulher de muita fé e agradecida à comunidade das mulheres leitoras e escritoras que transformou a minha existência numa verdadeira festa, e me fez encontrar, definitivamente com os meus pares no mundo e por isto acabo este ano em profunda gratidão.
Obrigada, mulheres ventaneras de Brasília, foi um privilégio, uma emoção e uma alegria imensa cada minuto da nossa convivência.
Abertos os trabalhos para 2015!
Feliz ano novo a todas.
Da mestra com carinho.

Lélia Almeida.


Curso de literatura de Autoria Feminina em Porto Alegre:






Nanni Rios abriu as portas da Livraria Baleia em Porto Alegre para que as mulheres ventaneras pudessem, finalmente, se encontrar e trabalhar. Achamos a nossa casa! Num espaço onde a literatura, as artes e todos os artistas têm um espaço de expressão garantido. Onde acontece o encontro legítimo da Aldeia!
 Os trabalhos, que começaram em março seguem com aquela paixão que conhecemos: o nosso amor pelas mulheres que escrevem e pensam. A livraria que começa a ser uma referência da boa literatura de autoria feminina na cidade, prepara também a organização de um Centro de Documentação de artigos sobre todos os temas referentes à Crítica Literária Feminista e às escritoras mulheres. 
Estamos todas na maior alegria e entusiasmo. O nosso agradecimento à Nanni Rios e à Livraria Baleia é imenso, tivemos uma acolhida de sororidade legítima, como pedem estes tempos! 
Obrigada, meninas!

Com as mulheres de Araçatuba, na "Oficina Intergeracional: Literatura de Autoria Feminina", em abril de 2015, um encontro maravilhoso e produtivo para todas nós. Muitas saudades de vocês, meninas!