segunda-feira, 18 de abril de 2016

Lemos juntas com as mulheres ventenras de POA o conto maravilhoso de Karen Blixen “La pagina em blanco” e sua interpretação definitiva no ensaio de Susan Gubar:  de "La página en blanco" y los problemas de la creatividad feminina”.

A escritora dinamarquesa Karen Blixen.

A ensaísta Susan Gubar.

Segue a produção ficcional do grupo sobre a página em branco.

A página em branco, por Lívia Petry:

                 Escrevo como escrevem os poetas: com a verve insana, com a asa ferida, entre verdades e mentiras. Escrevo para ser livre da baba de Caim, escorrendo em minhas veias. Escrevo porque sou feia, porque enrolo a língua para dizer “eu te amo”,  porque derrubo etiquetas e tapetes, desfaço os livros de bom comportamento, dou risada das colunas sociais, e vivo assim, à esquerda, gauche, tortinha como queria Drummond. Desengonçada e solitária, faço do meu corpo a escultura de prazeres: mesa, cama, cheiro, perfume Kenzo.
                    Como uma revolucionária às avessas, escrevo para viver. Para ser criador e criatura numa só nota de amargura. E faço do cursor, da pena, da caneta, meus lábios e meus olhos. Porque as palavras vêem, porque as palavras falam e gritam tudo o que eu sempre quis dizer e não tive coragem para isso. A folha em branco é o lençol conspurcado dos amantes, é o espaço dos fluidos que se tocam, que se espalham. A folha em branco é o lenço de Desdêmona, é a minha perdição extrema, é o lugar longe do espelho de Alice, é o lugar onde me encontro nascida outra vez.
                        Eu, que nasci de duas mulheres: minha mãe, primeira luz; minha avó, luz primeira. E assim, desde pequena, imitei a anciã da família. A anciã rebelde, que não quis apenas ser esposa e mãe, que quis ser escritora e professora de literatura. A anciã que escrevia novelas para a rádio Farroupilha. Ela sim, entendia minha loucura. Ela sim, sabia o que eu queria dizer quando escrevia: “paredes são rios e não sabem”. A avó, foi a primeira a pegar em armas: na caneta e na Ollivetti, ela criou novos mundos. Cansada da guerra, recebi dela a artilharia inteira: palavras, palavras à mancheia...
                    Escrevo porque como minha avó dizia, “o sonho não acabou”. O sonho somos eu e você, cada um sonhando que vive, que mora num apartamento exíguo, que gasta o salário pagando impostos, que ama, que sofre, que chama o sonho de Realidade. O sonho é isso: o véu das ilusões, a fama momentânea, o dia dos autógrafos. E é mais: um pouco de utopia porque escrever é dar esperança, é saber que a criança sem teto e sem pão, ainda assim, sorri com uma canção.
                  O sonho é essa coisa doida dentro da gente, querendo explodir de contente, querendo semear outros sonhos no resto das gentes. Escrevo para acordar, para saber que ainda existe na prática, o verbo “Amar”. Escrevo em ritmo e rima, feito fosse uma menina na ciranda, fosse eu dançarina. E assim, eu canto: porque o amor é tanto, e a vida pequenina. A página em branco? Minha roupa de bailarina, meu fru-fru, meu palco de cantora, minha ode amadora. Sou ela, a página a ser escrita. E escrevendo vou nascendo, vou juntando os cacos de mim mesma, vou sendo outra e eu ao mesmo tempo. Eu sou a página e a letra. Eu sou a  Musa e a Poeta, o vaso que Deus preencheu com as canções do mundo. Escrevendo, vou sonhando os sonhos de Deus assim, de pouquinho em pouquinho. E sonhando, vou criando o que Deus em sua infinita entrega, quer do sonhador. Sim, Abuela, “o sonho está só começando”... numa página em branco...

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