quinta-feira, 7 de abril de 2016

Carta à minha avó, por Lívia Petry.

Abuela, sempre gostei de te chamar assim, em espanhol mesmo, fosse isso em memória da Vó Maria que veio da Espanha junto com a mãe dela num navio, fosse porque tu lembras as avós de Buenos Aires, tu que gosta tanto daquela cidade. Tu e o Vô podiam ser argentinos: o Vô, com o lenço ao pescoço, escutando ora uma ópera, ora Gardel, e tu, sempre tão chic, elegante, como se fosse tomar o chá das cinco no Plaza.
         Tu sempre serás minha Abuela do coração. Lembro-me de nós duas, sentadas em cadeiras de palha e vime, na sacada da casa da praia, tu me lendo tuas histórias policiais, e eu criança, opinando sobre elas. Lembro do nosso encontro, eu com dezesseis anos, tu já idosa, e nós duas olhando fixamente um quadro na parede. Subitamente uma de nós começou a contar uma história baseada na pintura, e a outra, continuou de seguida a história, até que ficássemos ambas, novamente em silêncio.
           Tu, a única a entender a minha loucura de escritora, minha necessidade de ficar sozinha, minha paixão pelos livros. Tu fundaste o Núcleo da Hora do Conto na Faculdade de Biblioteconomia da UFRGS. Eu fundei a Trupe Quem Conta um Conto –contadores de histórias – junto com mais cinco colegas. Tu escreveste a Coleção Misterinho para a Editora Sulina. Eu escrevi e publiquei quatro livros, dentre eles, um infanto-juvenil, bem ao teu gosto.
         Nós duas, Vó, temos os mesmos defeitos: odiamos serviço doméstico, somos capazes de bajular a empregada para que ela não nos abandone. Eu e tu adoramos crianças, mas ao longe, que não venham atrapalhar nossas leituras! Somos Vó, igualmente egoístas quando estamos escrevendo ou montando uma aula. Criaturas carentes não nos entendem. Maridos e namorados idem. Todos ficam enciumados, porque somos tão parecidas e tão devotadas aos nossos personagens. A escrita nos apaixona.
          Somos capazes mesmo de conhecer o interior de cada um, e expor em palavras as feridas, e curar nossa raiva, o desejo de vingança, as tristezas eternas, com um simples canetaço. Indicador e polegar segurando a caneta, escorrendo a baba do demônio, escorrendo o juízo de Deus, e nós, Vó, no meio do redemoinho, como Riobaldo, como o velho Guimarães Rosa.
             Se é de Deus esse dom? Deve de ser. Mas deixemos Deus quieto em seu canto. Que eu sei, detestas essa religiosidade toda. Eu e tu Vó, nascemos do mesmo barro, do mesmo pé de Amoreira em flor. Eu e tu Vó, somos guerreiras, e ainda assim caímos doentes apenas para sermos cuidadas. Somos eu e tu duas rebeldes em tempos diferentes, só isso. E nosso paraíso fica a pouca distância dos olhos, nosso paraíso fica num livro. Não um livro qualquer, mas o livro da vida.

             Pororom, Piririm, esta carta chegou ao fim. 

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