quinta-feira, 7 de abril de 2016

Carta para a amada, por marian pessah.

Porto Alegre, 16 de março
 Clodet, amada, estou escrevendo para te agradecer. Sim, eu sei que já falamos, mas quando eu escrevo, reflito sobre o assunto, tu sabes, escrever é deslizar-se no tempo, esticá-lo e, ao mesmo tempo, escorregar nele. Assim as palavras absorvem as ideias e o meu mau humor se desfaz.
Da última vez que conversamos bem sabes o quanto eu estava agoniada, chateada. Dentro de uma nuvem. E tu, com a tua sensibilidade habitual, afastaste aquela nebulosidade que me impedia ver. Como não te agradecer também por escrito? Como não te amar?
Sim. Não está fácil, tu me dizias. Depois de duas décadas de ativismo feminista voltar à escola! Sabemos que a academia é um berço machista por excelência e, além do mais, hierárquico! Quase uma redundância. Quem está à frente é o professor (porra, neste semestre não tenho UMA professora) e é ele quem fala, quem está sentado deve escutar.
Mas como tu sabes, estou me desafiando no dia a dia. Embora, sexta-feira, seja o pior de todos. O professor, fazendo gracinha, contava que uma vez estava na Nicarágua conversando com um cara num boteco.  Aí, o tal do “lugareño”, falou assinalando uma mulher e disse que o deixava como a um touro. Como se faz para não estourar de raiva e indignação?  Como se faz para caminhar só pela via da literatura deixando a um lado a via da consciência? Aquela que nos salva, nos protege e que tanto me custou cultivar no meu jardim cerebral.
É claro que me revoltei! E como! Mais uma vez levantei a mão (integrando-me àquele circo Universal – tão uni  e nada plural) e falei do meu descontentamento. O ser letrado respondeu com aquela ironia típica dizendo que num boteco não iria encontrar poeta. Só lhe faltava aquele sorrisinho de lado e falar para os poucos guris da turma: - bate aqui!
Eu, indignada à enésima potencia, subi o tom e retruquei. Obvio que não vai encontrar poeta no bar – ou quem sabe? Já encontrei filósofo bêbado num ônibus em Natal, depois da meia-noite. Mas ele não poderia reproduzir assim, com essa leveza, aquela frase tão agressiva. Acrescentei que os feminicídios – será que o ser letrado conhecia essa palavra? Pior, o conceito? – na América Central são gravíssimos. Ainda tenho as palavras da Melisa dizendo, gritando, chorando, cuspindo que todas podemos ser assassinadas e essa foi o mote com o qual fizemos as fotos em Honduras: Poderia ser eu. De fato, tem apenas duas semanas que assassinaram a Berta e a Jéssica mandando mails pedindo, gritando, denunciando e clamando por ajuda internacional.
No dia seguinte continuei pensando, na próxima vez vou dizer ao professor para trocar a palavra mulher por negro, por pobre, por judeu, por indígena. Vamos ver se trocando as letras de lugar, o ser entende de injustiças.
Quanto bem me fez conversar contigo e desabafar. Obrigada mais uma vez por estar junto, por me mostrar que faço bem em me revoltar e em falar. Que não estou sozinha. Sei. Nunca sairão as palavras apropriadas na hora certa; mas, pior, é não falar e deixar aquele vazio. Aquela fala grotesca de um homem dando risada das mulheres, na frente de uma audiência de 40 pessoas, dentre as quais, pelo menos 30 somos o objeto da piada. Interromper também faz parte da educação.
No pasarán! Né, Clo, como a gente grita nas ruas, mas para que não passem a gente não pode nunca baixar os braços. O sistema, esse patriarcado tão feroz, tão injusto, que causa tanta dor, enfia-se por todos os lados e o tempo todo. Por isso o melhor antídoto é a nossa união.
Te abraço muito e em breve já estaremos juntas.
Te amo,
marian.

Nenhum comentário:

Postar um comentário