quinta-feira, 7 de abril de 2016

Nós, em algum lugar, no futuro, por Priscila Pasko.


Vó,
Imagino que neste momento alguém esteja lendo esta carta para a senhora. Talvez seja tarde demais para explicar o que não tem explicação, aliás, agradeço por a senhora nunca ter me perguntado nada. Seu silêncio me salvou, e enquanto eu respirava ofegante ele a mergulhava no vazio do tempo. Por isso me senti na obrigação de relatar cada dia dos dias mais difíceis dos dias da minha vida, da sua e da mãe. É de manhã. Estou sentada em frente ao computador. O cursor imita o ponteiro de um relógio e pisca...pisca, pisca... Enquanto isso tomo coragem para digitar. Não escrevo porque sei que as palavras têm peso e isso me assusta.  E nesta procura claro que não considerei nenhuma palavra apropriada, digna da senhora e, muito menos, digna de mim. Não consigo. Deixo para outro dia.                                                
Sono de merda. Odeio pertencer a uma família tão pequena e à qual não posso delegar tarefas que não suporto fazer. Assim como a sua história comprova, a da mãe e, provavelmente a minha, resta às mulheres lidar com a dor e a alma em carne viva. A todos cabe o remorso, mas a culpa não é órfã e precisa encontrar o seu espaço. Já que a vida assim é regida, decido aceitar as suas regras e permitir que a culpa seja acolhida em mim. E tudo fica pesado, vó: o ar, os meus olhos, os meus passos, a minha consciência. Ligo para duas casas de repouso e agendo uma visita.
A memória é baixa, traiçoeira e oportunista. Lembro-me das histórias que a senhora contava, do seu perfume sobre a penteadeira, do seu egoísmo, da sua vitalidade, do seu gênio intratável, dos seus cuidados comigo, dos doces feitos e até mesmo das suas inimizades. Tudo isso dançando de forma desordenada e macabra em minha cabeça. Sinto dores por todo o corpo.                                          
Seus fios de cabelo, que, anos atrás, eram negros graças à tintura e à vaidade, hoje estão pálidos, ralos. Os comandos básicos desobedecem. Exigem-lhe não apenas que use fraldas, é preciso um toque de degradação; alguém deve trocá-las e lhe enxergar como uma criança vulnerável. Confissão do fracasso do tempo. Quero o seu colo. Quero lhe dar o meu. Ao seu lado, brinco com o interruptor de luz suspenso sobre a sua cama, o mesmo que me distraia na infância. Acendo. Apago. Acendo. Apago. Apago. Apago.    
Busco, sem sucesso, na opinião alheia respaldo para nossa decisão. Mas os conselhos são vagos, vó. Ninguém quer se comprometer sobre o destino das pessoas velhas. Enxergam no desfecho pouco louvável a própria sina. A sua postura independente não condiz mais com a fragilidade do corpo. Agora não basta querer, vó, é preciso pedir e depender. Desfrutar da solidão em uma casa não é mais privilégio, mas perigo iminente.   
Foi naquele momento que decidimos não mais deixar a senhora sozinha, a quilômetros de distância. Aqui no hospital, o enfermeiro com olhos de prego lança um julgamento. Vó, guardei bem aquele olhar e jurei a mim mesma nunca mostrar aqueles olhos a ninguém. Lembrei de sua silhueta isolada na penumbra da sala de casa, rodeada de quadros de fotos antigas e um rádio relógio mal sintonizado. A porta principal da casa, sempre aberta, mostrava a possibilidade de qualquer chegada, mostrava o tempo. Já era o momento de lhe desgarrar das horas.
De forma amadora, a mãe prepara lhe prepara os curativos. Está tudo arranjado e a senhora não sabe de nada. Eu finjo não saber. Sim, vamos arrancá-la das histórias da sua casa, do jardim e das rosas. Será melhor. Sua cama, bibelôs e sofá ficam. Não visitaremos mais o bairro. Minha cabeça vai explodir. Despeço-me da minha infância, da parreira e dos banhos de mangueira no pátio. Recebo da culpa um soco em meu estômago.     
Com a ajuda de um amigo, a mãe busca a senhora para um passeio. E essa mentira vai rasgando minha mãe durante todo o trajeto. Chegando lá, orientam lhe deixar sem se despedir. A senhora espia ao seu redor acreditando ter voltado à casa em que morou décadas atrás. É o passado que a recebe e conforta por alguns instantes. A mãe carrega tijolos dentro dela. E chora cimento.
Dia de visita. Levo frutas e outros mimos à senhora: uma oferenda à minha vergonha, ao fato de ter de deixá-la neste lugar, acolhedor de histórias suspensas. Suas mãos aceitam minha oferta com candura. Os velhos da sua nova casa riem, comem, engolem comprimidos, contam lembranças e inventam visitas. A senhora canta uma antiga marchinha de carnaval.
Com 29 anos de idade, enxergo o meu corpo no seu. A senhora está nua sobre a cama enquanto lhe dão banho. O dia está lindo lá fora. Vó, espera... Estes seios são meus, este ventre... eu conheço. Seus pelos, que aos 88 anos resistem fortes no seu corpo, suas costelas salientes são também as minhas. Estou em pé, ao lado da cabeceira da cama e, aos pés, a mãe. Olha, vó, os olhos da mãe também são meus, assim como o cabelo. Veja, esse queixo é seu, é da mãe ou meu? Quem de vocês eu sou? Somos uma? Afinal, quem está sobre a cama? A senhora sorri para mim. “Deus te abençoe”, e me beija a testa.
Por fim falei, vó, por fim a senhora sabe.
Da sua sempre neta.


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