terça-feira, 12 de julho de 2016




A Bela Adormecida, por Marta Peixoto.

Vivi um sono profundo durante muito tempo de minha vida; sempre obediente, submissa e tentando agradar aos outros. Isto devido à minha educação e características de minha personalidade. Nem me queixava, pois não me dava conta de que eu poderia ser diferente ou que minha vida poderia ter sido diferente ou, se me dava, não sabia como mudar a ordem das coisas. Me lembro de relacioná-la com “la chèvre de monsieur Séguin “.
O pensamento que eu tinha quando criança era o de um conto de fadas: quando crescer vou me formar, conhecerei um rapaz por quem vou me apaixonar, me casar, terei filhos e viverei feliz para sempre. Bem, me formei, me casei, tive filhos e vários anos se passaram enquanto meus filhos cresciam e eu trabalhava na profissão que tinha escolhido e era feliz [pensava eu] até que aconteceu algo que mudou minha vida completamente.
Meu marido me comunicou, de um dia para o outro, que ia sair de casa para morar com sua colega de trabalho [10 anos mais jovem que eu], e de quem ia ter um filho e nos deixaria a mim e aos filhos. Nunca suspeitei que ele estivesse namorando muito menos que fosse nos deixar. Só minha mãe, muito sábia, deduziu que ele tinha outra mulher quando uma vizinha me contou que ele tinha deixado a porta do apartamento aberta quando saiu, enquanto meus filhos e eu veraneávamos na praia.
A partir daí, de sua saída, tive que aprender a ser independente, decidida e a continuar a viver tentando me recuperar do vazio do nosso lar, mas tendo a meu lado meus filhos, que eram o mais importante de minha vida.
O sonho acabou. A Bela Adormecida acordou daquele sono profundo em que vivera grande parte de sua vida e daí em diante a vida era viver e lutar.
Mas hoje transcorridos muitos anos desse episódio que parecia tão trágico e desastroso, eu me encontrei bela e acordada, incansavelmente acordada, trabalhando e amando viver tanto, que todas as noites não esqueço as gotinhas de fitoterápico para dormir.